top of page

Época de eleição, por Fábio Rodrigo


Arte a partir de foto de Rogério Florentino / OD
Arte a partir de foto de Rogério Florentino / OD

Eram duas da tarde. O calor era demasiadamente insuportável àquela hora. Na calçada, uma mulher de aproximadamente 30 anos segurava seu filho enquanto acenava com a bandeira de seu candidato. Para se proteger do forte calor, ela usava um chapéu, e seu filho dormia com uma pequena toalha sobre o rosto. Deveria ter uns dois anos de idade.


Esta cena é bastante rotineira em época de eleição. Milhares de pessoas como ela se submetem a fazer propaganda de um candidato em troca de alguns trocados que garantam o pão de cada dia. Nada é capaz de fazê-la desistir. Nem o forte calor. Nem o fato de não ter com quem deixar o seu filho. Essa é a forma que tem para garantir o sustento de sua família. Não há outra escolha.


Na mesma calçada, dezenas de outros colaboradores também acenam bandeiras de diversos candidatos enquanto outros distribuem santinhos aos passantes na movimentada calçada. É interessante observar que não há rivalidade entre eles apesar de fazerem propagandas para candidatos diferentes. Realmente não há motivos para isso. Afinal, são todos títeres de um mesmo sistema perverso.


Volto os meus olhos para a mulher que segura o seu filho. Reparo que há uma pequena bolsa, amarrada na cintura, na qual ela guarda uma garrafa de água e um pacote de biscoito. Certamente é esse o seu kit de sobrevivência para aguentar várias horas de trabalho no sol escaldante.


Chega a noite. Todos os trabalhadores começam a se preparar para o retorno aos seus lares. Não há mais santinhos para serem distribuídos nem braço para acenar bandeiras. É hora de ir pra casa descansar e recuperar as forças para outro dia de luta. A mulher com o filho já enrolou sua bandeira. Ela está sentada na beira da calçada, amamentando o seu pequeno, enquanto conta moedas para pagar a sua passagem de volta pra casa.

Fábio Rodrigo Gomes da Costa é professor e mestre em Estudos Linguísticos.





POLÍTICA