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A melhor aula que eu já tive

Por Hélida Gmeiner

Foto: Reprodução/Arte: Jornal Daki
Foto: Reprodução/Arte: Jornal Daki

Primeiro é importante que eu diga que foi uma aula tardia. Estava já na pós-graduação. Demorou, né? Claro que tive outras boas (ótimas) aulas, mas essa ficou para mim como nenhuma outra. Penso que nem todas as pessoas que estiveram naquela aula ficaram tão mexidos com ela, mas eu…


Sábado de manhã. Pois é, começa que nem dia nem horário eram propriamente agradáveis. A gente já saía de casa com vontade de voltar, às vezes até precisando voltar. Mas ia. Um belo dia, chegamos na sala e demos de cara com a falta de mesas e cadeiras, e começamos a procurar por elas. A professora ainda não estava conosco quando entrou na sala um belo rapaz. Simpático, nos cumprimentou sorrindo. Nós, com aquela cara de quem não está entendendo nada, respondemos sem graça. Poucos minutos depois entrou a professora e avisou:


_Hoje vamos ter aula de dança de salão!


É, foi assim na bucha, sem mais nem menos, estávamos intimados a fazer aula de dança!



Mil caras e bocas foram saindo de cada uma (tinha sim, alguns poucos alunos do sexo dito dominante nessa turma, mas eles faltaram a essa aula) de nós. Muita gente ficou brava de verdade. Acharam que estavam sendo enganadas, que foram colocadas em uma situação ridícula. Mas pouco a pouco fomos relaxando e nos deixando seduzir pela aula do professor, aquele tal rapaz que chegou no início da aula. Ele não se abalou nem com as caras feias nem com os comentários mal humorados feitos entre dentes. Foi nos provocando, sempre com um sorriso animado, chamando todo mundo para dançar.


No fim, estava toda a mulherada envolvida, se mexendo, rindo e aprendendo mesmo a dançar (o pouco que sei de Forró aprendi nesse dia e já coloquei em prática uma vez, na Feira Nordestina de São Cristóvão – RJ, é mole?).


Quando faltavam alguns minutos para acabar a aula, a professora, que já tinha, como todas nós, dado boas risadas, interrompeu nossa divertida aula de dança, não sem encarar sonoros protestos. Queria conversar. Avaliar o momento.


_Quero propor que nós façamos uma reflexão. Quero que pensem sobre o que vivemos hoje. O que acharam da aula?


_Muito divertida! Foi a palavra que soou mais forte.


Aprenderam alguma coisa sobre dança?

_ Um pouco, né? Mas a gente queria mais...


_Quando chegaram aqui, nenhuma de vocês estava disposta a aprender o que eu queria ensinar. Também, era o que EU queria ensinar. A decisão não era de vocês, ninguém tinha escolha. Nossos alunos e alunas da escola básica quando vão para a escola encontram sempre essa realidade. O que determinou o sucesso dessa aula então?


Fomos embora pensando na resposta, ou respostas para questão que a professora levantou.


Na aula seguinte conversamos sobre metodologias e sobre predisposição para aprender. A maioria de nós falou que o professor era muito bom e sabia muito sobre a dança. Outras falaram sobre a técnica que ele usou para ensinar. Concluímos que foi a soma desses e de outros fatores que fizeram da aula um sucesso.


Particularmente aposto no sorriso do professor e na sua paixão pela dança… mas sei lá.


P.S.: Essa crônica é parte integrante da dissertação de mestrado "Crônica de uma professora pesquisadora: lições que o cotidiano revela" FFP/UERJ 2011


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Hélida Gmeiner Matta é professora da Educação Básica da rede pública. Pedagoga, Especialista em alfabetização dos alunos das classes populares, Mestre em Educação em Processos Formativos e Desigualdades Sociais e membra do Coletivo ELA – Educação Liberdade para Aprender.