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A terrível infante - por Sammis Reachers


Foto: Pixabay
Foto: Pixabay

Era meu único filho, e sua morte aos doze anos despedaçou o que me restava de família, talvez de sanidade.


No enterro, me chamou a atenção uma menininha, a que jamais vira; não por sua presença, que talvez fosse amiga de escola de Mateus, mas por aparentar estar sozinha.


A tarde caía. Me distraí entre pêsames e rostos e a perdi de vista, logo de memória.


Ao fim do funeral, fiquei sozinho, e vaguei pelo cemitério, desolado, destruído, como um bêbado – embebedado pela dor e o nonsense de minha tragédia.


No meio de uma alameda de túmulos, sozinha, divisei a menina. Ela não me vira; estava sentada sobre uma lápide, olhos fitos no chão.


Me aproximei.


– Você está sozinha, e num cemitério? Onde está sua mãe?


Ela sorriu.


– Nunca tive uma mãe. Mas meu pai está por aí, me vigiando.


– Já está escurecendo. Você não tem medo da noite?


– Como temeria a noite, se sou sua emissária?


E, saltando da lápide, correu por entre seus mortos.

 

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Sammis Reachers, nascido por acaso em Niterói mas gonçalense desde sempre, é poeta, escritor e editor, autor de sete livros de poesia e dois de contos, e professor de Geografia no tempo que lhe resta – ou vice-versa.


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