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A vida é pra quem sabe viver - por Paulinho Freitas

SÃO GONÇALO DE AFETOS

Reprodução Internet
Reprodução Internet

Meu camarada Américo era tudo de bom. Bom companheiro, amigo, não atrasava o lado de ninguém. Não podia ver ninguém triste que já queria saber o motivo e ajudava a levantar o astral da pessoa nem que pra isso precisasse baixar o seu. Não media esforços para ajudar um amigo em situação financeira ruim ou em acudir alguém, mesmo que não conhecesse em algum momento de apuros, sejam lá quais fossem. Era sim, um grande sujeito.



Na época de glória dos estaleiros fluminenses ele parecia o dono do estaleiro Mauá ali na Ponta da Areia, em Niterói. Chegava para trabalhar vestido em jeans do mais caro e sapatos da mais pura pelica, ou ainda tênis importados. No bolso da camisa além de um maço de cigarros dos mais finos, lapiseiras, canetas de nanquim e uma caneta tinteiro para assinatura denunciavam um engenheiro, um técnico ou algum cargo desta natureza. Na verdade ele era como se diz na gíria, um “peão de trecho.” Trabalhava jateando o casco dos navios com areia expelida por uma mangueira de ar comprimido. Trabalho perigoso, só para quem tinha muita disposição. Isso era o que não faltava ao nosso Américo.



Depois de uma semana inteira trabalhando até altas horas para faturar aquelas horinhas extras no salário, enfim era sexta feira, dia de beber com os amigos e extravasar, botar pra fora todo aquele estresse. Enquanto os companheiros entravam e saíam rapidamente do chuveiro ávidos por saírem para a farra, nosso Américo sentava tranquilamente num banco do lado de fora do vestiário, acendia um cigarro e abria o Caderno “B” do Jornal do Brasil onde lia sobre os shows do final de semana, resumos dos filmes em cartaz e também de peças teatrais, também se interessava por exposições de artes etc... Depois que todos saíam do vestiário ele entrava para um demorado banho e saía garboso, ereto como um lorde e já transformado num personagem. Era outra pessoa.



Pegava um taxi na Ponta D’areia e ia direto para o bar Caneco Gelado do Mário, onde na calçada a rapaziada bebia uma gelada e falava sobre trabalho e futebol. Américo passava de mesa em mesa e falava com todos, depois adentrava o bar e no reservado onde estava toda a chefia do estaleiro mostrava todo seu talento versando com desenvoltura qualquer assunto que pintasse. Era querido por todos e nunca o deixaram pagar uma rodada de chope sequer, apesar dele sempre puxar o talão de cheques e sua linda caneta tinteiro, sempre tinha alguém brigando para pagar sua cota. Namorou lindíssimas mulheres, todas moradoras de áreas nobres de Niterói, frequentou os mais caros clubes e viajou por Cidades da Região dos Lagos e Costa Verde do Rio de Janeiro como se fosse tomar um café no bar da esquina.



Viveu intensamente, contava muitas histórias não vividas e vivia muitas histórias não contadas. Quando veio a falecer, vítima de um AVC aos quarenta anos deixou algumas viúvas e um casal de filhos. Dia desses, na praça de alimentação de um shopping aqui em São Gonçalo vejo uma mesa com muitos jovens bebendo chope e rindo muito. No centro das atenções um jovem muito bem vestido com uma camisa social e nos bolsos, várias canetas e lapiseiras. Qual não foi minha surpresa ao reconhecer Ameriquinho, falando e gesticulando como o pai, chamando a atenção para si e ladeado por duas lindas jovens.


De onde meu amigo Américo estiver deve estar muito orgulhoso. O espelho não quebrou.



Paulinho Freitas é compositor, sambista e escritor.




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