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Belezas e riquezas do “patinho feio” e “primo pobre” do Leste Fluminense, por Mário Lima Jr.


Foto: Mário Lima Jr.
Foto: Mário Lima Jr.

São Gonçalo ainda tem outros apelidos que a imprensa e as más-línguas das cidades vizinhas gostam de criar. O jornal The Economist chamou São Gonçalo de “cidade sem glamour” em uma matéria sobre gastos durante a pandemia. E é tudo verdade: São Gonçalo é pobre, feia e sem glamour. O que muita gente não sabe é que, do jeito gonçalense, há prazer aqui.

Já vi famílias fazendo piquenique à sombra das árvores na Fazenda Colubandê.


Comemorando aniversário na grama, com bolo e tudo, comendo salgadinho, passando a tarde andando de bicicleta, jogando bola e soltando pipa. A Fazenda é um dos patrimônios coloniais mais importantes do Brasil. Até a The Economist seria capaz de encontrar glamour ao ver um casal de namorados tomando café da manhã, em um dia de sol, ao lado da capela construída no século 17.


No pico do Alto do Gaia, ponto mais alto da cidade, fica mais fácil compreender São Gonçalo. A gigantesca zona rural permitiria expandir os rumos do crescimento urbano respeitando a natureza e gerando mais qualidade de vida. A vista do alto é tão linda e verde quanto o caminho, cortando fazendas, pra chegar até o ponto turístico. Seria hipocrisia não reconhecer a beleza de Santa Isabel, do Alto do Gaia e das Grutas de Caulim, com nascentes de água limpa e gelada pingando do teto, por causa de qualquer problema afetando a região, como a presença do tráfico de drogas. As opções são entregar nossas riquezas e lamentar pra sempre ou eleger governos que implementem desenvolvimento social e segurança pública de qualidade.


A beleza de muitas cidades está associada a praias. São Gonçalo não tem essa vantagem, mas é possível se divertir na Praia das Pedrinhas, por que não? As pessoas se exercitam, comem, bebem e veem um lindo pôr-do-sol lá. O local ainda favorece eventos culturais e foi durante a festa Presente de Iemanjá que comprei o romance Macumba, do genial escritor Rodrigo Santos, e confirmei que a produção artística gonçalense é um dos maiores valores municipais.


Afinal, o trabalho diário de jovens artistas espalhados nas ruas e praças da cidade permitiu que São Gonçalo exportasse nada menos do que o rapper brasileiro mais ouvido da atualidade (O Globo). Além de ter formado grafiteiros de renome internacional. A imprensa e os vizinhos não reconhecerão as belezas e riquezas de São Gonçalo se os gonçalenses não fizerem isso primeiro.


A The Economist poderia citar que passar um tempo na Igreja Matriz é uma delícia. O complexo histórico traz uma paz difícil de ser encontrada no Centro. Talvez sob as árvores da Praça Zé Garoto, comendo uma pipoca. Ou batendo um papo com a livreira da Ler é Arte, local que faz São Gonçalo parecer uma cidade amistosa do interior. Quem já xingou São Gonçalo (inclusive gonçalenses) poderia aceitar um desafio: após a pandemia, testemunhar a união que constrói o maior tapete de Corpus Christi da América Latina e a inocência que junta milhares de pessoas ao redor de um brinquedo, durante o tradicional festival de pipas. Vai descobrir que também há força, ingenuidade, beleza e riqueza nesse território.


Este texto apareceu primeiro em mariolimajr.com.

Mário Lima Jr. é escritor.



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