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Compra uma caixa de doce pra mim trabalhar, pai? - por Mário Lima Jr.


Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

– Ô varão, ô meu padrinho, compra uma caixa de doce pra mim trabalhar, pai? Desculpa tá incomodando o senhor.


O rapaz tentava esboçar um sorriso. Ele queria arrancar simpatia do fundo da alma, onde não havia nada além de sofrimento. Com a falsa alegria, pretendia sensibilizar o mundo ou pelo menos uma pequena parte da cidade de São Gonçalo. O rosto dele, de pele grossa, cansada, maltratada pelo sol, com cicatrizes de origem inexplicável e barba por fazer, era um rosto de intimidade com a dor.


Implorando pela caixa de doces, o jovem, que devia ter uns 25 anos, seguiu o pedestre por alguns metros na calçada entre a loja da Cia. de Doces, no bairro Raul Veiga, e as Casas Bahia. Apesar da insistência, ele recebeu apenas um desejo de “Boa tarde” em troca. Sem o produto para revender, o rapaz voltou para a frente da loja onde havia um grupo de três pessoas abordando pedestres com o mesmo pedido. Como ter uma tarde boa sem estudar, trabalhando de maneira precária e sendo ignorado pela sociedade? Mães solo, jovens e muitas crianças, negras na maioria, que pedem ajuda na porta das lojas de doces da região de Alcântara aguardam a resposta.



A camisa do Bayern de Munique, vendida por até R$ 300 em lojas especializadas, podia confundir o primeiro olhar e levar a conclusões erradas sobre as condições de vida do rapaz. Na Rua da Feira, as camisas dos clubes europeus de futebol são bem mais baratas e ninguém, em sã consciência, passa o dia suplicando uma caixa com 21 unidades de balas Halls que custa R$ 15 sem precisar de verdade. Se tivesse algo melhor para fazer, o fã do Bayern não trocaria a convivência com sua família para chamar estranhos de pai, mãe, padrinho e madrinha, tio e tia, num último esforço de sobrevivência. Ele não se desculparia por incomodar quem ainda tem o que comer e mantém o privilégio de poder ser solidário.


A realidade é que 33 milhões de brasileiros passam fome todo dia. Nos últimos anos, a quantidade de vendedores de balas e panos pedindo ajuda para alimentar seus filhos aumentou de maneira assustadora nas ruas de Alcântara, maior bairro comercial de São Gonçalo. Hoje é impossível andar pela região sem encontrar pessoas desesperadas para vender alguma coisa e levar um trocado para casa. Diante do abandono das questões mais importantes para o país, distribuição de renda, educação e segurança, a única saída que o jovem pobre gonçalense encontra é esperar outro pedestre passar e implorar de novo.

 

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Mário Lima Jr. é escritor.



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