Conceição
- Jornal Daki

- 5 de ago.
- 3 min de leitura
SÃO GONÇALO DE AFETOS
Por Paulinho Freitas

Conceição mora na esquina da rua que sobe para a rua de cima, partindo da rua de baixo, passando pela rua do meio. Na rua do meio morava Gilberto. Este brincava com todos os vizinhos, especialmente com a mãe de Conceição, Dona Menina, conhecida por toda a vizinhança, pegava restos de comida nas casas para dar aos poucos que criava. Todas as vezes que D. Menina passava Gilberto cantava: “D. menina mulher de caroço, tira da faca pra cortar o meu pescoço...” D. Menina tinha uma voz rouca, dava uma gargalhada curta e respondia:
“_Fia da puta! ”
Ela ia caminhando devagar com a lata de lavagem na cabeça enquanto Gilberto gargalhava.
Conceição ainda era uma menina-moça e acompanhava a mãe. O olho de Conceição é de um azul sem comparação. Um pouco de céu, um pouco de mar, um pouco de violeta um pouco de poesia Djavanesca, inigualável. O que chama atenção desses olhos é que sempre olham para o chão, como se estivessem procurando alguma coisa.
Logo que chegou a adolescência começou a beber e a fumar. A previsão e a lógica diziam que Conceição não faria parte de nossas vidas por muito tempo. Do jeito que ia, dali para sempre seria só caminhar para trás.
Toda a garotada da idade de Conceição seguiu a vida estudando, trabalhando, se preparando para um futuro melhor enquanto Conceição, com seus olhos de azul inigualável e cabelos encaracolados seguia subindo e descendo da rua de cima para rua de baixo. Na rua de baixo entrava na padaria, bebia, comprava cigarros e subia para a rua de cima, passando pela rua do meio, sempre com os olhos atentos ao chão, como se alguma coisa procurasse. Na rua do meio encontrava com D. Menina, sua mãe, com sua inseparável lata de lavagem na cabeça sendo alvo das repetidas gozações de Gilberto:
_ “D. Menina mulher de Caroço, tira da faca pra cortar o meu pescoço...! ”
Ao que ela respondia com aquela gargalhada curta e rouca:
“_Fia da puta!”
O tempo é como o vento. Quando a gente começa a sentir prazer em senti-lo, ele já passou, mudou de direção e a gente vira o rosto na tentativa de sentir de novo o mesmo frescor. Não dá. É um novo tempo trazendo um novo vento, vindo de outra direção, avançando para outra, te avisando que continua em movimento e a qualquer momento você vai acordar sentindo os efeitos da mudança, do tempo e do vento.
O tempo adormece o dia para que a noite nos iluda com sono e sonhos enquanto ele passa despercebido por nossos rostos, nossa pele, nossa saúde, nossa mente e quando acordamos já somos outra pessoa, pensando diferente de ontem, com novas ambições, com outros pensamentos.
O tempo passou muito rápido, sem que eu pudesse perceber. Quando dei por mim já não ouvia Gilberto cantar:
_ “D. Menina mulher de Caroço, tira da faca pra cortar o meu pescoço...! ”
E D. Menina responder com sua rouca gargalhada:
_ Fia da puta!
O tempo só não conseguiu enganar a Conceição. Ao contrário do que todo mundo dizia, que ela não duraria muito tempo sobre esta terra, ainda ontem a vi, descendo da rua de cima para a rua de baixo, entrar na padaria, beber, comprar cigarros e subir para a rua de cima, passando pela rua do meio, dando uma paradinha, talvez para esperar D. Menina com sua lata de lavagem na cabeça, xingando Gilberto e gargalhando com sua rouca voz. Talvez pensando no porquê o tempo a tenha esquecido ali, subindo e descendo a rua, com aqueles olhos de azul indescritível, poéticos, Djavanescos, varrendo o chão a procura não se sabe de quê.
Meu peito aperta, sinto saudades daquele tempo, olho para ela, penso em cumprimentá-la. Melhor não. Deixo-a no tempo dela, no mundo dela, nos sonhos dela. Só canto alto na intenção de chamar sua atenção pela derradeira vez:
_ “Conceição, eu me lembro muito bem...!”
Que nada! Lá vai ela, com seus lindos olhos azuis e pele ventada por todos os lados pelo tempo, varrendo o chão, sem olhar para frente, olhar para trás, sem olhar para mim.
Nos siga no BlueSky AQUI.
Entre no nosso grupo de WhatsApp AQUI.
Entre no nosso grupo do Telegram AQUI.
Ajude a fortalecer nosso jornalismo independente contribuindo com a campanha 'Sou Daki e Apoio' de financiamento coletivo do Jornal Daki. Clique AQUI e contribua.

Paulinho Freitas é compositor, sambista e escritor.








































































Comentários