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Durval só queria entrar em casa - por Mário Lima Jr.


Foto: Reprodução Internet
Foto: Reprodução Internet

Durval só queria entrar em casa. Ganhar um beijo da filha. Colocar ela na cama e ler a história preferida dela antes de dormir. Ouvir a esposa no outro cômodo fazendo planos sobre o futuro da família, talvez amadurecendo ideias envolvendo a próxima festa de aniversário.


Sorrir. Durval queria sorrir descrevendo como foi seu dia de trabalho. Reclamar do trânsito horrível que enfrentava todo dia entre São Gonçalo e Niterói. Comentar a respeito da violência sem fim nos dias de hoje, quem sabe citar a covardia brutal contra Moïse.


Durval queria tomar um banho, jantar e descansar como todo pai de família. No dia seguinte ele acordaria cedo de novo. Mas não vai acordar. A filha dele tem apenas seis anos, mas Durval nunca mais acordará pra ela, que ainda nem sabe que o pai foi assassinado. A menina está esperando a história que o pai não leu na noite de quarta-feira passada.



Mesmo levantando uma mão, tirando forças de onde não tinha, com os projéteis destruindo seu corpo por dentro e dizendo “Eu sou morador”, Durval não teve a chance de entrar em casa. Não teve o direito de ser morador. Para Durval e seus parentes, para todos os negros brasileiros, foi concedido apenas dor.


Os tiros atingiram Durval e ele não pôde compreender nada. Morrer desse jeito estranho, dentro do condomínio onde mora, com a família esperando, no principal lugar onde deveria haver segurança. Durval percebeu que era tratado como um bicho sem valor, como um bandido, então, caído, se arrastando, levantou o braço direito diversas vezes afirmando que morava ali, o próprio assassino reconheceu em depoimento.



Durval pensou na família e teve medo. Medo de como a mulher e a filha ficariam sem a presença dele. Continuou se arrastando pra trás o máximo possível, pra longe do ódio do autor dos disparos, longe da própria casa e de quem ele amava, até não poder mais. Até não suportar a dor de se mover e perder o controle de si.


Que morte é essa? Morte onde a dignidade humana é roubada. Quando antes de morrer sentimos que o mundo já nos despreza completamente. Porque tudo o que existe é racismo e só a família e os amigos de Durval sabiam o pai amoroso que ele era. No fim, esse era o desejo. Que todos soubessem quem Durval era de verdade e que seu assassino o deixasse viver só pra entrar em casa mais uma vez.

 

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Mário Lima Jr. é escritor.




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