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Esperança - por Paulinho Freitas

SÃO GONÇALO DE AFETOS

Woman photo created by rawpixel.com - www.freepik.com
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Antigamente trabalhávamos a semana toda e no sábado empinávamos pipas, jogávamos bola, fazíamos um churrasquinho com carne de segunda, cerveja de segunda e despesa rateada esticando o pouco dinheiro. Todos nós ríamos muito uns dos outros, as crianças brincavam sob nossos cuidadosos olhos, falávamos pelas costas, uns dos outros, às vezes bem, às vezes mal, às vezes mais mal do que bem, às vezes mais bem do que mal, mas sempre falávamos de nós.


O final de semana passava feliz e a semana com gosto de quero mais. O tempo foi passando, as crianças crescendo, nós envelhecendo, a corrida do ouro acontecendo.


A vida mudou, alguém se mudou, a saudade apertou e a política chegou. Abrindo nossos corações, deixando à mostra tudo de ruim que o amor tentou esconder durante tanto tempo. Disparamos palavras feito lâminas afiadas no peito que outrora fora nosso travesseiro. Subjugamos, humilhamos e em nome de Deus odiamos.



Em alguns, o abraço que não demos por causa de uma pandemia e mais uma série de motivos jamais daremos.


O candidato de alguém ganhou e o de alguém perdeu. A vida a troncos e barrancos tenta voltar a sua normalidade. Os políticos começam seus conchavos e quem era contra agora é a favor e quem era a favor agora é contra. E nós?


Nós, voltamos ao nosso casulo, tentando sarar as feridas e olhar no espelho sem ter vergonha do que vemos lá. Novas crianças chegaram e não nos conhecem, assim como as crianças que tanto acarinhamos não nos reconhecem. Os filhos dos filhos dos nossos filhos não nos conhecerão. A árvore está morrendo.


No coração a saudade, a lembrança do tempo em que nada éramos e nada tínhamos para subjugar o outro e o único gosto indecifrável, o gosto do líquido que escorre de nossos olhos e entra por nossa boca nos confundindo é ainda o que nos faz humanos.


Será o ódio se dissipando? Será a vida cobrando? Será a esperança chegando? Será o amor voltando?


Lembra do abraço? Ainda dá tempo.


Digam-me lá!

 

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Paulinho Freitas é sambista, compositor e escritor.




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