Família unida é família feliz
SÃO GONÇALO DE AFETOS
Por Paulinho Freitas

Já falei aqui da família de Leleti e do apreço que tenho por ela. Na minha infância e inicio de juventude pude testemunhar as tardes de sábado e os almoços de domingo. Aos sábados, depois de fazer a feira e tomar aquela gelada com os amigos ali na praça do Gradim, Leleti subia o Morro da Salga assobiando um samba do bom e pensando nos ingredientes para preparar aquela moqueca de peixe para o almoço de domingo, sem perder de vista a tarde-noite de sábado com aquele jogo de víspora com os irmãos e cunhados no quintal, regado a churrasquinho, daqueles de palito, e os costumeiros aperitivos.
Jurandir não morava no morro, mas não faltava nunca a uma comemoração e quando ele chegava com a família era uma festa à parte. Aquele falar alto, histórias já contadas muitas vezes eram recontadas como novidade causando as mesmas gargalhadas.
Quando se aproximavam as eleições a família se dividia na captação de votos para seus candidatos, não havia remuneração, era só por amizade mesmo. Uns votavam em Alcyr Coelho, que tinha uma lojinha ali na esquina da rua Henrique Dias com Visconde de Itaúna. Outros votavam em Ameriquinho, acho que era parente de Alcyr, morava na Travessa Rocha. Outros ainda votavam no Zeno, irmão de Biguá, que era presidente do B.C. Xavantes do Paraiso.
Lembro de um pleito que a eleição foi polarizada entre Joaquim Lavoura e Nicanor Ferreira. Foi um alvoroço danado, cada um caprichando no trabalho para o seu candidato, como uma torcida organizada. No final, venceu Joaquim Lavoura e a comemoração foi geral. Quem era Lavoura bebia à vitória e quem era Nicanor, bebia para afogar as mágoas pela derrota, mas juntos numa baita batucada. Na vereança eu nem lembro quem entrou, se não me falha a memória foi o Alcyr Coelho, mas todos comemoravam. Ô tempo bom!
No terreno da família também funcionava um centro de Umbanda, muito frequentado pelos moradores do morro em busca de passes, benzeduras e rezas para todos os males. Alguns integrantes da família abraçaram o protestantismo como religião, mas mesmo assim continuaram participando dos churrascos de sábado e dos almoços de domingo. Cada um com sua fé.
De uns tempos para cá as coisas desandaram. A família continua fazendo suas comemorações, unida, com candidatos diferentes, mas com o mesmo respeito. Só que Jurandir, que encabeçava as festas, não aceitou o fato da família ter um posicionamento diferente do dele e cada vez mais foi se afastando e já não frequenta como antigamente e quando aparece é certo ter algum constrangimento.
A família é como o corpo humano. Por menor que seja o membro, se a gente perder, faz uma falta danada e naquela família, todo membro, por menor que seja, é metade do corpo.
A vista do pôr do sol do morro da Salga continua lindo, os finais de semana na casa de Leleti também. Falta a alegria da chegada de Jurandir e família.
E pensar que lutamos por tudo, apesar de termos vindo do nada, sem nada trazer, e para o nada voltaremos, sem nada levar.
Que pena!
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Paulinho Freitas é compositor, sambista e escritor.









































































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