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Lembranças - por Paulinho Freitas

SÃO GONÇALO DE AFETOS

Foto: Reprodução Internet
Foto: Reprodução Internet

Das festas de final de ano trago muitas lembranças, lembro que minha família ia toda para Nova Iguaçu, casa de meus padrinhos comemorar o aniversário de minha prima Dinah que era justamente no dia 31 de dezembro. Meu padrinho criava galinhas, porcos, perus, lembro-me de ter visto um cabrito numa dessas ocasiões.


Pela manhã do último dia do ano, bem de madrugadinha mesmo, ainda escuro, os mais velhos se ocupavam de sacrificar os animais. Nós, as crianças, não podíamos nem chegar perto. Diziam que os animais demoravam a morrer. Depois que o dia raiava era um tal de depena daqui, limpa dali, tempera acolá, uma falatório interminável de mulheres dando pitacos no tempero umas das outras e contando causos ocorridos durante o ano.


Na maioria das vezes era falando mal dos maridos que bebiam muito, chegavam tarde, amarravam o dinheiro para as despesas, tudo sempre com muito humor e todas riam demais.



Os homens por sua vez, depois de terminar suas tarefas abriam logo uma garrava de cachaça, o nome era Praianinha e algumas cervejas de casco escuro, só servia essa e lá vêm mais histórias e causos de tudo quanto é tipo e qualidade até a hora do almoço quando todos almoçavam e ia tirar a merecida soneca da tarde porque à noite tinha muita música, mais gargalhadas, mais alegria até de manhã... Saudade...


Depois, já crescido, lembro-me de minha avó indo para igreja passar a noite de reveillon em vigília, rezando, pedindo mais fé, mais alimento para o povo, paz, trabalho para os homens e união familiar. Nessa época, nós, os mais jovens, fazíamos aquela “vaquinha”, cada um dando um pouquinho e estava formado um churrasco, pequeno, mas para nós era um banquete que rapidamente acabava. Adolescente tem uma fome que não passa.


Depois da meia noite, muitos abraços, beijos e muito choro depois íamos para o Clube Tamoio onde ao som de uma banda carnavalesca ficávamos dançando em círculos até de manhã quando a banda tocava a derradeira marchinha Cidade Maravilhosa.


Num desses bailes vi iniciar um romance, ela rodava por dentro do círculo acompanhada das irmãs mais velhas e ele dançava por fora, os olhares um no outro pareciam não ver nada além do rosto um do outro. Era como se não tivesse ninguém ali, nem música, nem espaço, nem tempo. Só os dois emanando um puro e lindo amor de adolescentes.


Lembrei-me disso hoje a tarde quando parei no semáforo pensando em nada, só olhando o vazio da vida nesses tempos sem muita esperança e de repente vi, na calçada, esperando para atravessar a rua aquele casal, aquele mesmo que dançava em círculos olhando um para o outro.



Eles estavam ali de novo, na minha frente, de mãos dadas com aquele mesmo olhar. Lógico que eles, mesmo que me vissem, nem poderiam imaginar que eu sou a testemunha viva daquele amor, daquele início de namoro que já dura mais de cinquenta anos. A simples presença deles me fez renascer em esperança de vida, de fé no ser humano. Que encontro maravilhoso!


Não foi mais que um minuto, tempo suficiente para relembrar uma vida inteira e ter a certeza de que tudo pode dar certo ainda, em todos os sentidos.


O Brasil vai dar certo! A vida vai dar certo pra todo mundo, tenham certeza! As coisas vão melhorar e entrar nos eixos! Depende de nós, do nosso amor pela vida, pela vontade de lutar e de vencer! Vai dar certo! É só a gente querer que dê e trabalhar para isso.


Não deixe de lembrar as coisas boas, do que aconteceu de lindo neste ano e em todos os anos passados. O exercício da lembrança é maravilhoso e emocionante. Estou muito feliz por este momento, por esta vida, por minha vida e por todos que passaram por ela deixando felizes lembranças.


Desejo que todos vocês também estejam muito e que vocês tenham grandes lembranças e grandes acontecimentos futuros para lembrar mais tarde. Muito obrigado pela leitura de minhas Histórias, Causos e afins...


FELIZ ANO NOVOOOOOOOOOO!!!!!!!!!

Paulinho Freitas é sambista, compositor e escritor.





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