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Luziane mostrou o caminho para o fim do racismo - por Mário Lima Jr.


Luziane na manifestação/Foto: Reprodução Facebook
Luziane na manifestação/Foto: Reprodução Facebook

Ontem Luziane caminhou da Praça Zé Garoto até a Prefeitura de São Gonçalo exigindo justiça. Por ser negro, seu marido foi assassinado com três tiros na porta do condomínio onde morava, no Colubandê. Durante a caminhada Luziane conversou diversas vezes com a imprensa e com o público presente, revelando o quanto Durval era amoroso e o tamanho da dor da família pela perda. Quando não falava, ela se expressava com o olhar. Cada palavra, cada gesto e cada olhar continuam lá, naquele trecho de menos de um quilômetro. Basta caminhar por ali e sentir. Na cidade mais perigosa para negros no estado do Rio de Janeiro, Luziane mostrou o caminho para o fim do racismo.


O primeiro ponto que Luziane deixou claro foi a personalidade de Durval. Ele tinha um cuidado extremo com ela e com a filha do casal. Estava sempre disponível para ajudar no que fosse preciso. A chegada de Durval do trabalho era aguardada com ansiedade, todas as noites, porque ele era um homem bom, do tipo que transforma cada momento simples em algo especial. Que contava histórias para a filha de seis anos antes dela dormir. Luziane ainda se identifica como “esposa”, não como viúva. Voltar para a casa onde eles moravam significaria a admitir o vazio e ela não tem forças pra isso. Os pertences de Durval continuam intocados dentro da casa.


Vítimas negras são rapidamente transformadas pela sociedade em criminosas culpadas pela própria morte. O amor de Luziane impede que façam o mesmo com seu marido. Durval era tão querido que sua esposa e sua filha ficavam olhando, pela janela de casa, para a passarela em frente esperando ele passar. Na noite do crime, elas viram Durval atravessando. Depois ouviram os três tiros. Então uma vizinha bateu na porta e entregou a bolsa e os chinelos de Durval sujos de sangue.



Quando Luziane estava saindo para a caminhada, Letícia perguntou aonde a mãe iria. “Vou lutar por justiça para o seu pai”, disse Luziane. “Vai com tudo, mamãe”, respondeu a menina. Além de contar como o marido era, Luziane exigiu apenas justiça. Aurélio, o assassino racista, não foi julgado ainda. Se Luziane não lutar, Aurélio voltará às ruas no dia seguinte. O sistema é tão racista quando o assassino.


Aquilo que não disse com palavras, Luziane revelou com o olhar: luto, resistência, sofrimento profundo e a alma rasgada. Ela não trabalha, não vive mais. A filha ainda espera o pai chegar. Aurelio destruiu a vida de três pessoas.


No fim da caminhada, Luziane passou mal e se sentou por alguns minutos. Sem reclamar. Sem dizer absolutamente nada. Bebeu água porque ofereceram. Nada além da justiça interessa. Logo depois ela já estava de pé na escadaria da Prefeitura, enfrentando a dor de revisar outra vez o assassinato do marido diante das câmeras. Uma dor que ensina que tiramos conclusões sem sequer ouvir quem mais sofre. E que o caminho contra o racismo é respeitar as vítimas e seus parentes e junto com eles exigir justiça.

 

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Mário Lima Jr. é escritor.





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