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Não queremos só respeito à nossa história afro-brasileira, queremos respeito e cumprimento da Lei

Por Rafael Negro Dias e Fabiana Mesquita

Foto: Reprodução Instagram
Foto: Reprodução Instagram

Dois de fevereiro, dia de Yemanjá, uma importante divindade na religião afro-brasileira, venerada como rainha das águas do mar e dos rios. Uma divindade mulher negra. Neste dia de celebração, da religiosidade e cultura afro-brasileira, amanhecemos com a triste notícia de que em uma escola pública, um muro com arte produzida por professoras e estudantes, marcado como um espaço de memória da história negra na cidade de Piraí, fora literalmente apagado com/por branco.


O embranquecimento do negro, bem como de toda arte, pesquisa, cultura e história sempre foi um projeto de Estado e da branquitude brasileira (escravagista e escravocrata, ontem e hoje). E nada tão cruel, simbólico e violento do que apagar o que é de preto com tinta branca. É a mais pura materialização do racismo - estrutural, institucional e popular - que é crime (Lei do Crime Racial 7.716/89).


O objetivo do texto desta semana, era descrever a importância do cumprimento e da articulação das Leis 10.639/03 e 11.645/2008, as quais estabelecem a obrigatoriedade do ensino e o desenvolvimento atividades sobre a história e culturas afro-brasileiras e indígenas nas escolas da rede básica de ensino, sejam elas públicas ou privadas. Entretanto, vimo-nos diante de uma serendipidade*,descobrimos ou encontramos alguma coisa, enquanto estávamos procurando outra, mas para a qual já tínhamos que estar, digamos preparados”.



Toda nossa (Coletivo ELA) solidariedade à escola CIEP158 - Professora Margarida Thompson (Piraí-RJ), à professora Carolina Maíra, aos artistas Landara Marcele, Larissa Teixeira e Rodrigo Maisalto Dabf, aos estudantes da escola, e a toda comunidade negra de Piraí-RJ. Axé! Paz e bem!


A violência impetrada no ambiente escolar do CIEP 158, ou melhor, o crime de racismo, traduz que embora tenhamos avançado em pesquisas e políticas públicas para (re)conhecimento das lutas e da história do povo negro no Brasil, o processo de educação ainda não superou o racismo. Para além das desigualdades de acesso e de oportunidades educacionais, muitas redes de ensino e escolas (públicas e privadas) parecem estar engajadas na manutenção do privilégio branco utilizando o apagamento e a invisibilização da história e dos notáveis sujeitos e sujeitas negras do nosso povo.


O ato de apagar (não há o que se falar em pintura de muro, pois não foi) uma obra de arte que simbolizava o afeto e a dor da população negra, foi criminosamente um ato de racismo. A obra fora desenvolvida e construída coletivamente como marco de memória e história negra na escola pública CIEP 158, durante o Movimento dos 21 dias de Ativismo Contra o Racismo. Conforme as palavras Professora e Historiadora Janete Ribeiro (NEAB), “nossas ações não podem ser descartadas pelo escárnio com o qual gestores ignorantes tratam a educação de nossas crianças e jovens”.



Neste exato momento, um grupo de jovens afro-brasileiros/as encontram-se reunidos e uma aula fora da ‘sala de aula tradicional’. No MAR (Museu de Arte do Rio), compartilham experiências, saberes e leituras negras sob a curadoria da professora Janete Ribeiro. Este acontecimento, me faz lembrar o movimento das águas, que na Mitologia Yorubá tem referências à divindade Yemanjá (celebrada em 2 de fevereiro). Esta divindade, segundo a mitologia, carrega e limpa, sob o movimento que faz nas águas, toda a impureza e maldade que assola e oprime.


Então reflito, que este encontro, da professora Janete com os estudantes, fazendo do mundo uma outra sala de aula... uma sala de aula que arrebenta os grilhões da educação pública e de qualidade que tentam nos privar, uma sala de aula que faz jovens periféricos aquilombar espaços historicamente negados - como os museus e a escola pública (Lei nº 1, de 14 de janeiro de 1837)... este é o movimento educacional que precisamos na sociedade (racista) brasileira: ocupar os espaços públicos de educação e cultura, e ensinar “a história que a história não conta”.


O crime de racismo na escola CIEP 158, não vai parar a onda de crianças e jovens empoderados, educados para aquilombar e não retroceder, que farão resistência com resiliência, serão fortes, mover-se-ão ao sabor dos ventos, e se houver enchente serão rios sem margem!


Não nos segure, não nos prenda, não provoquem nossas águas: respeitem nossa história e apliquem e cumpram as leis 10.639/03 e 11.645/2008: Ensinem a história afro-brasileira! Não seremos apagados/as, tão pouco embranquecidos/as!


*A referência é do livro Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves

 

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Rafael Negro Dias (@rafaelnegrodias) é Analista de Projetos e Cientista de Dados. Superior Complementar em Psicologia do Desenvolvimento Humano (PUCRS), graduando em Ciências Econômicas (UERJ) e História (UCAM), integrante do GAIEP-UERJ (Grupo de Pesquisa Geografia e Educação), membro do Coletivo ELA – Educação Liberdade para Aprender e colaborador da Coluna "Daki da Educação", publicada às sextas.


Fabiana Mesquita é integrante do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa em História da Educação e Infância (NIPHEI/UERJ), possui Pós-graduação em Metodologia do Ensino Superior e graduação em Administração (UNIVERSO), graduanda em Pedagogia (FFP/UERJ) e membra do Coletivo ELA – Educação Liberdade para Aprender.



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