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O jeito gonçalense de comemorar - por Mário Lima Jr.


Foto: Divulgação PMSG
Foto: Divulgação PMSG

O gonçalense está longe de ser a pessoa mais segura do mundo. Nem o gonçalense extrovertido chega a uma festa falando alto e querendo atenção. Todas as pessoas que moram em São Gonçalo se comportam da mesma forma quando são convidadas para comemorar uma conquista, mais um ano de vida, um casamento ou outra coisa qualquer, pode observar. O comportamento da maioria influencia inclusive quem vive há pouco tempo na cidade.


O início da comemoração é tímido. No meio da festa, a intimidade dos pequenos grupos de conversa se destaca. Antes do fim da celebração a alegria domina o ambiente, mas a timidez e a intimidade, típicas de cidades pequenas, cercam os gestos e os passos dos gonçalenses até a volta pra casa.


A população de São Gonçalo é maior que a de Maceió e de outras capitais de estado. Nada em São Gonçalo é pequeno, a diferença é que aqui um milhão de pessoas se conhecem e se olham nos olhos. Se elas se conhecem, não deveriam se preocupar tanto com o julgamento das outras ao ponto de parecerem uma população de introvertidos, certo? Os gonçalenses são como meninos na puberdade que têm vergonha de tirar a camisa na frente da própria mãe. Alguns meninos perdem a vergonha depois de alguns anos, outros não.


Os gonçalenses nunca deixaram de preferir a discrição. Nem no churrasco de domingo que acontece após o futebol. Toda semana grupos de amigos se reúnem, mas o primeiro grito só é ouvido depois de horas de comemoração e muitas cervejas.



Até o comportamento em uma festa de policiais que vivem e trabalham no Rio de Janeiro é diferente daquele encontrado em uma comemoração em São Gonçalo em que a maioria dos presentes é policial. O curioso é que o jeito de se vestir é o mesmo. Pelo menos um relógio de destaque ou cordão grande compõe o traje. Um tênis caro e roupas de grife são obrigatórias. Só que no Rio os policiais chegam à festa de cabeça erguida, cara fechada e irritada com algo que certamente não será resolvido durante a festa. A família vem alguns passos atrás. Em São Gonçalo, o policial se aproxima do local da festa de mãos dadas com a filha, em quem busca apoio, esboçando um sorriso e olhando para um lado e para o outro enquanto procura outros rostos familiares.


Alguém poderia dizer que agir de maneira reservada foi importante para a evolução humana, sujeita a predadores. Que toda cidade se parece um pouco com São Gonçalo. Não sei dizer, eu não conheço outras cidades.

 

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Mário Lima Jr. é escritor.



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