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O valor de um escritor - por Rofa Araújo


Bakhtin - Reprodução
Bakhtin - Reprodução

O que será que significa um monte de letras juntas com um toque pessoal de cada autor? Será que somente vale as “regras” a serem seguidas pela gramática e boa ortografia? E a emoção de quem escreveu e a famosa e bem aceita “licença poética”?


Bakhtin, um dos mais destacados pensadores de uma rede de profissionais preocupados com as formas de estudar linguagem, literatura e arte, afirmou que a língua só existe em função do uso que locutores (quem fala ou escreve) e interlocutores (quem lê ou escuta) fazem dela em situações (prosaicas ou formais) de comunicação.


Também deixou claro que o ensinar, o aprender e o empregar a linguagem passam necessariamente pelo sujeito, o agente das relações sociais e o responsável pela composição e pelo estilo dos discursos. Esse sujeito se vale do conhecimento de enunciados anteriores para formular suas falas e redigir seus textos.


Sendo assim, o que sobra para o escritor? Suas palavras escritas, embora possuam suas funções e significados ao serem produzidas, ganham vida e até nova interpretação ao serem lidas. E quando declamadas as suas poesias, dramatizados os seus contos e lidos com ênfases as suas crônicas, podem mudar de sentido pela entonação da voz.


Michel Foucault em sua obra “O que é um autor?”, afirmou categoricamente que “O autor está morto”. Ele desseca em seu estudo que não basta reafirmar que a escrita não é expressão de interioridade alguma e que diante da obra o autor morre mil vezes a cada palavra. Ou seja, uma vez escrita, uma obra ganha o mundo e vira atemporal. Não é toa que escritores, sejam membros da academia de letras ou não são considerados “imortais”. Uma vez escritas e publicadas, as palavras nunca morrem.


Carlos Drummond de Andrade em seu poema bem conhecido e comentado “No meio do caminho” disse que “No meio do caminho tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do caminho / tinha uma pedra / no meio do caminho tinha uma pedra”. O que eram essas pedras? Ele mesmo se divertia com a repercussão e interpretações. Ganhou vida seus versos...


Ainda sobre “pedras”:


Sócrates escreveu: “Transforme as pedras que você tropeça nas pedras de sua escada”.

Antoine de Saint-Exupéry: “Um monte de pedras deixa de ser um monte de pedras no momento em que um único homem o contempla, nascendo dentro dele a imagem de uma catedral”.


Cora Coralina: “Fiz a escalada da montanha da vida removendo pedras e plantando flores”.

Quantas frases, afirmações e óticas distintas de vários autores sobre um tema relativamente banal: “pedras”. E existe um significado maior ou menor a respeito? Não. Cada um tem o seu, sendo todos corretos ao seu modo.


Da mesma forma que uma tela pintada. Os artistas que a fizeram podem afirmar o que quer dizer, mas, aparentemente, isso não tem importância. Quem vislumbra e admira que assimile de sua forma bem particular. Lembro-me de um quadro que de perto e de longe tinham visões bem distintas. Assim, acontece o mesmo com a interação com o admirador, leitor e espectador.


Mediante tudo isso, em resumo, uma frase minha que postei no Dia do Escritor (25/7), pelas redes sociais, pelo meu dia e de muitos colegas: “Escrever é ter o dom divino de falar com as palavras escritas que ganham vida com o prazer de escrever e de ser lido pelos leitores”.


O valor de um escritor é enorme pelas pérolas que produz com sua riqueza que somente será lapidada por quem lê e aproveita de seu brilho para sua vida.


Um forte abraço do Rofa!

 

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Rofa Rogerio Araujo é jornalista, escritor (cronista, contista e poeta), professor, palestrante, filósofo e teólogo.