O Zorro, Ali Babá e os Heróis de Revista
- Jornal Daki

- 7 de mai.
- 3 min de leitura
Por Mira Pimentel

O Rio de Janeiro acorda todos os dias parecendo um capítulo escrito por um roteirista cansado, irônico e apaixonado por plot twist.
Quando a gente pensa que já viu de tudo, surge mais uma operação policial, mais um figurão levado para depor, mais uma mala, mais um áudio, mais um “não fui eu” com cara de “talvez eu tenha sido”.
E no meio dessa novela tropical nasce uma figura curiosa: o tal do Zorro Garotinho.
Não aquele do cavalo preto e da espada espanhola.
Esse vem de microfone na mão, faro jornalístico e olhar de quem já viu muito gabinete tremer por menos.
O homem parece viver em estado permanente de investigação.
Enquanto muita gente dorme, ele fareja.
Enquanto alguns escondem papéis, ele abre gavetas.
Enquanto certos políticos tomam café, ele já publicou três denúncias e meia dúzia de indiretas.
Autointitulado — ao menos no imaginário popular — “O Vingador Xereta”, ele surge como personagem improvável nessa miscelânea carioca de corruptos, corruptores, aliados temporários, inimigos reciclados e heróis que às vezes parecem vilões em férias.
O Rio anda tão surreal que já não sabemos mais se seguimos com Zorro… ou com Ali Babá e seus quarenta assessores.
E convenhamos: a política fluminense já ultrapassou a fase da análise séria.
Hoje ela exige psicanálise coletiva, roda de samba e talvez um pai de santo especializado em CPI.
Mas enquanto o Rio produz seus personagens cinematográficos, o mundo também apresenta seus próprios heróis de gibi.
De um lado, Donald Trump.
Trump parece ter sido desenhado por um cartunista hiperativo: broncas, bravatas, cabelo desafiando a meteorologia e frases que entram para a história antes mesmo de serem entendidas.
É quase um super-herói das revistinhas modernas.
Metade presidente.
Metade personagem de reality show.
Metade meme.
Sim, Trump consegue ter três metades — porque até a matemática desiste perto da política.
Do outro lado, Luiz Inácio Lula da Silva.
E Lula já pertence a outra categoria: a dos homens que viraram símbolo antes mesmo de terminarem a própria caminhada.
Você pode concordar ou discordar dele.
Pode admirar ou criticar.
Mas existe algo impossível de negar: a travessia humana desse homem.
Um menino pobre.
Nordestino.
Operário.
Metalúrgico.
Sobrevivente de perdas, dores, disputas, prisão, doença, ataques, glórias e quedas.
Lula parece carregar nas costas não apenas a própria biografia, mas várias versões do Brasil ao mesmo tempo.
E talvez por isso tanta gente não consiga “medir” Lula apenas pela idade.
Há pessoas que envelhecem.
E há pessoas que atravessam o tempo.
São coisas diferentes.
Porque idade e luta não se contabilizam.
Não cabem em planilha.
Não obedecem calendário.
Tem gente que vive oitenta anos sem deixar marca.
E tem gente que vive um minuto incendiando gerações inteiras.
Talvez seja isso que confunda tanta gente: existem seres humanos que o tempo não consegue explicar completamente.
Só o mistério da vida.
Enquanto isso, nós aqui no Rio seguimos assistindo a tudo: Zorro investigando,
Ali Babá recrutando, Trump discursando, Lula resistindo, e o povo… tentando pagar boleto enquanto acompanha a temporada mais inacreditável da história política contemporânea.
E amanhã?
Ah… amanhã certamente teremos outro capítulo.
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