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Parabéns Vossa Majestade do Samba - por Paulinho Freitas

SÃO GONÇALO DE AFETOS

Arte: "Roda de Samba" - Carybé
Arte: "Roda de Samba" - Carybé

Meu pai não era sambista, não tocava nada, não cantava nada, não frequentava escolas de samba e nem rodas de samba, mas era apaixonado por samba. Dá pra entender?


Quando estava de folga acordava cedo, lia o jornal, bebia umas e outras, almoçava e dormia. Quando acordava pegava seu rádio, sintonizava numa rádio AM, não me lembro qual, sei que o programa era “Sambas na Passarela”, passava a tarde toda ouvindo Clementina de Jesus, Cartola, Roberto Ribeiro, Originais do Samba e outros grandes sambistas que na época tinham melhor divulgação que hoje em dia.


Minha avó era católica fervorosa, devota de N.S. das Graças e adorava cantarolar jongo, até arriscava uns passinhos, apesar da idade avançada tinha muita saúde. Minha mãe era pé de valsa, adorava dançar, na juventude junto com meu tio eram os reis dos bailes. Enquanto meu pai só escutava seu samba no rádio estava tudo às mil maravilhas, ruim foi quando Antônio do Chocalho veio morar numa casa ao lado da nossa.



O cara era viciado em samba e além de ouvir discos o dia todo ainda acompanhava com o bendito chocalho. Nos finais de semana frequentava todos os ensaios de blocos que podia, lembro uma vez ali no Barreto onde vários blocos se preparavam para o carnaval que o vi tocando na bateria do bloco carnavalesco Tudo Sabe Nada Diz.


Estava concentrado e motivado, de olhos fechados tocava com tanta emoção que parecia rezar. Em dado momento o chocalho escapuliu de suas mãos, passou por cima do muro e caiu no ensaio do Bafo do Tigre. Desesperado saiu correndo para buscar seu instrumento, como ele estava demorando fui lá também para ver o que tinha acontecido, qual não foi minha surpresa ao vê-lo tocando lá, para não perder o embalo tinha ficado ali mesmo. Que figura!


A amizade entre Antônio do Chocalho e meu pai não tardou a acontecer e naquele mesmo ano meu pai desfilava todo feliz num bloco formado por operários do Estaleiro Mauá, o nome do bloco era “Só Faz Vergonha”, saía todo sábado de carnaval às sete da manhã pelas ruas de Niterói. Meu pai ficava feliz da vida. Passado o carnaval voltava meu pai para sua varanda ouvindo seu rádio e Antônio do Chocalho para seus discos.


Um dia cismaram de formar uma dupla, meu pai chegou em casa com um reco-reco, que até hoje guardo com carinho, os dois iam para a garagem, abriam uma garrafa de Praianinha, que era a cachaça da moda e começavam a cantar e tocar:


No pagode que eu fui tava assim de mulher, chegou eu, Roberto Carlos e Pelé...



Nenhum dos dois cantava nada e o barulho dos instrumentos desencontrados enlouquecia a vizinhança. Logo os outros vizinhos começaram a fazer parte da roda e a batizaram de Balaio de Gatos, a mulherada ficou possessa e tantas foram às discussões que a roda voltou a ter somente dois integrantes, apesar do barulho eram os dois muito engraçados e o pessoal aturava.


Um dia, no auge dos “trabalhos” Antônio do Chocalho sentiu uma forte dor no peito e caiu, todos correram pra acudir, carrega-lo não era fácil, devia pesar quase cem quilos, conseguiram levar Antônio do Chocalho até sua cama e uma ambulância foi chamada, respirando com dificuldade e suando muito ele fez seu derradeiro pedido:


_Quero meu chocalho, se eu morrer não quero lágrimas, quero uma roda de samba, quero meu balaio de gato cantando pra mim. Viva dois de dezembro! Viva o Dia Nacional do Samba!



Estávamos no dia primeiro de dezembro e no dia seguinte o corpo de Antônio do Chocalho foi enterrado no Cemitério Central de São Gonçalo, todos os vizinhos estavam lá. O velório, ao contrário do que pedira o finado foi de muita tristeza, todos gostavam muito dele, mas na hora em que o caixão desceu a sepultura meu pai não aguentou, tirou seu reco-reco da capa e começou a cantar:


No pagode que eu fui tava assim de mulher, chegou eu, Roberto Carlos e Pelé...


Todos os presentes fizeram coro, foi muito bonito.


Meu pai não tardou a adoecer e passou o carnaval do ano seguinte internado, sexta-feira após as cinzas não resistiu e faleceu. Minha vida no samba começou tardiamente, depois que meu pai se foi. Acho que formaríamos um trio e tanto, mas sei que onde os dois estiverem, lá estará o balaio de gatos fazendo a alegria de todo mundo.


VIVA DOIS DE DEZEMBRO MINHA GENTE! VIVA O DIA NACIONAL DO SAMBA!!!!!


Paulinho Freitas é compositor, sambista e escritor.