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Índio Sete Cordas: Um novo Renascer aos setenta e cinco anos, por Oswaldo Mendes


Índio/Foto: Arquivo pessoal

Iniciar um texto com um pleonasmo. Sinceramente deveríamos inserir também alguns superlativos, mas esperamos que consigamos transmitir no texto parte da obra e da emoção dessa grande figura, amante da vida, que há quase setenta anos atua na música ao lado dos melhores, e tem como qualidade ser autodidata, dentre outras.


Galeria Cruzeiro, para quem não conhece é um sub-bairro gonçalense que fica ao lado do extinto batalhão do Exército denominado 3º BI, atualmente um Conjunto habitacional no Venda da Cruz, lá nasceu João Evangelista Cruz, em 26 de agosto de 1945, mas sempre viveu na Engenhoca. Criado pelas tias na antiga Travessa Cinco, no mesmo bairro niteroiense. Morou também no Centro de Niterói, Itaúna e outros locais.


Os primos que moravam em Porto das Caixas, dentre eles o Placinho do Bandolim – Plácido Freire, Antonino Freire – no acordeom, João Freire – no violão, João Leite – violão e Francisco Leite – percursionista que tocava com Pixinguinha, não saiam da casa na Engenhoca, sempre em saraus. Vendo sempre a “rapaziada” do bar tocando músicas ou até mesmo na igreja, quando era levado foi se apaixonando pelos acordes.


“Se afaste dessa gente. Ali só tem cachaceiro.” Eram os conselhos que sempre ouvia sobre aqueles que entoavam músicas nas esquinas. Ficava de longe assistindo, mas não demorou muito para ele pegar no pandeiro, que muitas vezes ficava sem ninguém para tocar. Violão, cavaquinho e bandolim estavam presentes, mas o pandeirista não. Era o início e a chance de ser aceito no grupo. Foi ensinado como bater pandeiro e ainda muito criança já estava na roda dos bambas.


Já na roda com os músicos populares tinha outros objetivos: aprender a tocar um instrumento de corda, mas como? Muito pobre, como adquirir um?


Um cavaquinho, onde as cordas eram afinadas e controladas por cravelha de pau, era de uso comum, mas tinha proprietário. O octogenário naquela época denominado Sr. Nélson era o dono. As crianças brincavam pelo quintal da casa do idoso e Índio Sete Cordas pediu e como resposta teve um sim. “Trate-o com carinho” - foi a única exigência. Sem tarraxas, igual a um “rebeca”. As cravelhas eram feitas em casa com um pedaço de pau e madeira para que se colocassem as cordas e posterior afinamento. Com esse instrumento Índio aprendeu a tocar os primeiros acordes de cavaquinho.


O pessoal da esquina, músicos populares eram, dentre eles, José Darli Lousada – violonista e cavaquinho; Odílio Careca – violonista; Pedrinho – pandeirista; Russo – violão; Pedro Lacerda – acordeom e sanfona, o qual morava na antiga travessa Quatorze, na Engenhoca e um tio que tinha sanfona de oito baixos, o qual também tinha oficina em casa.


Seus primeiros professores de música foram o Sr. Nélson, Darli Lousada e que também lhe emprestou um método “Garoto” para tocar cavaquinho. Darli foi alçado para tocar com Emilinha Borba e deixou a esquina.


Na adolescência, em torno dos seus dezesseis anos, se juntou com Carlos Leandro, o qual estava iniciando na bateria, com Luisinho do teclado, que depois foi para o Superbacanas e ficavam tocando músicas de Jorge Ben e da moda: “iê iê iê”, na Travessa Três, onde também morava Manel Balufa e Chiquinho Abrantes. A bateria era emprestada pelo Manoel Balufa ao Carlinhos Leandro.


Um dia o Maestro Willians Passos passa a pé juntamente com outro Maestro que era conhecido como Baiano e viram eles tocando, quando foi perguntado se eles queriam se profissionalizarem. E lá foram: Carlinhos na bateria e Índio nas cordas e com dezessete anos já foram para a Ordem dos Músicos para tirar a carteira, em 1964.


Sua primeira experiência musical como profissional foi então na banda de William Mello Show, o qual, à época, disputava com Severino Araújo.


Vindo do Clube Barreirinhas, em Ilha de Paquetá – Baia de Guanabara, isto nas barcas em direção ao Rio estava nela também a Orquestra do Maestro Severino Araújo indo tocar no Teatro Municipal e se juntaram e fizeram apresentação para os presentes. Esse tipo de apresentação por artistas populares durou até em torno dos anos 2000. Quem utilizava as barcas viajava ouvindo uma boa música, lá na parte traseira das barcas, popa.


Iê iê iê, hoje é dia de Rock e também do Programa de Raimundo Nobre, na Rádio Mayrink Veiga. Além do Índio, Carlinhos Leandro e Tony Tornado dentre outros sempre estavam presentes. Assistia Tony Tornado que se apresentava fazendo mímica, mas seu foco mesmo era o programa Regional de Canhoto, com Dino Sete Cordas. Foi alçado a Rádio Federal de Niterói onde chegou ao cargo de diretor do Programa Paulo Bob, isto com dezessete anos. Todos os artistas antes de irem para a televisão – TV Rio, TV Tupi, TV Continental e TV Excelsior, tinham que passar pelo seu crivo. Casou, recomeçou uma nova vida como motorista de ônibus, por onde ficou por dez longos anos.


Conviveu nos anos sessenta com todo o pessoal da Jovem Guarda, pois na Radio Federal de Niterói eles ensaiavam com a batuta do Índio. Fez ponta com Jackson do pandeiro e outros.

Voltou a tocar em 1980 quando ficou desempregado como motorista de ônibus. Nada esqueceu e com violão emprestado recomeçou na noite a tocar em serestas. Muitos convites apareceram, assim tomou a decisão de colocar a carteira da Ordem dos Músicos em dia e comprar um violão: um sete cordas.


Sombatuque – em 1985, Regional de Chorinho e outros: Índio Sete Cordas estava de volta, nada mais de seis cordas. Pioneiro da Rádio Tropical com Armando Campos, seu amigo particular. Lá ensaiava com quem fosse se apresentar na Rádio. Quem quisesse se apresentar o caminho era o Índio Sete Cordas: Almir Guineto, Zeca, Pedrinho da Flor e outros, mas mantém amizade ainda com Neguinho da Beija Flor e Elaine Machado.


Relembra do Toninho Gerais na Sicam, isto como cavaquinhista em afinação de sol-ré-lá mi. Era único com essa afinação. Léo da Vila tinha outra afinação.

“Na aba do pagode”, na SICAM, diversos artistas foram gravar e o grupo Chamego também; o Índio pertencia ao Grupo Sombatuque, mas houve o convite para colocar o violão. Notem que nas músicas “Mulata que xinga e Reinando alegria” não tem violão – só cavaquinho e banjo, pois estava em São Paulo em outra gravação na Ariola. Ganhou disco de ouro. Foi muito bom.


Com nome relembrado por muitos, ele ainda tem a vontade de fazer ativar a cultura. Alega que tem espaço e pessoal, mas falta algo, pois em Niterói, município ao lado, já participou de dezenas de projetos e estes não acontecem na sua cidade amada – São Gonçalo. Ele não consegue entender. O que acontece que a cultura é tão abandonada.


Lembra de Marquinho Satã o qual o lançou e posteriormente veio o convite para trabalhar com o mesmo. Ficou por um tempo e no seu lugar entrou Paulão, que atualmente encontra-se com Zeca. Índio Sete Cordas estava com o Sombatuque e lá se manteve.


Mudou-se para Caxias. Se sente em outro mundo apesar da violência. Lá é quase desconhecido como músico. Vem para Niterói e São Gonçalo apenas para tocar. De Caxias só volta para São Gonçalo. Em Caxias retorna às atividades como artesão. Faz cavaquinho, violão, instrumentos de cordas. É o Índio Marceneiro.


Com a pandemia, parado e sem tocar, retirou seus instrumentos e ferramentas de marcenaria do cofre e começou a brincar a fazer portas escovas, gavetas com madeira reciclável e fez também a forma do primeiro cavaquinho. Vendeu e assim não mais parou. Abriu uma loja de “Empório das Artes”. De material de casa a instrumentos - um novo sucesso. Bandolim, cavaquinho e violão são feitos e estão sendo bem vendidos. Tem um projeto de academia de música com projeto de aprendizagem de como se faz e como se toca um instrumento.


Os instrumentos de marcenaria vieram do seu tio, que trabalhou como tal no Lloyd Brasileiro, e deixou como herança diversos materiais para uso. Lembra que a primeira guitarra e contrabaixo que utilizou no Paulo Bob foi ele quem fez utilizando tais materiais. É apaixonado pelos desenhos de madeira. “O pinho é muito lindo!”


“As crianças de hoje não têm essa oportunidade junto à arte. De dança, canto e tocar”, cita Índio.


Ele afirma que cresceu num ambiente onde achavam que a malandragem estava toda dentro das Escolas de Samba, mesmo tendo a Corações Unidos ensaiando perto de sua casa. Afirma hoje que sim, mas num olhar positivo e sem preconceitos. “O músico se completa numa Escola de Samba. Lá é que se aprende. Não é sem motivo que tem esse nome. Pena que demorei muito tempo até chegar lá. A escola das escolas”.


Em 1989 veio a primeira oportunidade na escola de samba. Nêgo, irmão de Neguinho da Beija Flor, o levou para a GRES. Unidos da Tijuca e lá se destacou como um dos melhores e muito aprendeu. No GRES Salgueiro, com Rico Medeiros, em 1990. Na Tijuca ainda desfilou em 1990 e 1991 e por intermédio de Beto veio outro caçador de talentos, Monassa, que o levou para a GRES, Viradouro.


Na Viradouro, Porto da Pedra, Cubango e São Clemente ele desfilou como profissional.

De 1992 a 1996 ficou na Viradouro até a chegada de Dominguinhos do Estácio com seu staff. Agradece muito às Escolas de Samba. Afirma que ninguém pode ter a ousadia de dizer que é Sambista sem passar pela escola de samba. Escola é Escola de Samba.

Faz homenagem de agradecimento pela sua história ao Sombatuque, Nêgo, Viradouro, Cubango e Unidos da Tijuca.


Quer mais? Índio Sete Cordas em plena atividade! Que receba nossas homenagens!

Oswaldo Mendes é engenheiro.





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