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A missão de um pai



“Uma das poucas missões que restam aos homens é fazer com que seu filho varão torça pelo mesmo time de futebol que eles”, diz um texto do mestre Julio Ludemir. Quando o ouvi dizer isso, reconheci o que em minha alma já se calava desde o momento em que chorei naquela sala de ultrassonografia. Talvez se fosse uma menina eu não me sentiria tão responsável – mulheres são displicentes com o esporte bretão, em sua maioria – porém ver que a purificação a meus genes podres oferecida pelo conjunto perfeito de minha amada se realizaria em um pequeno viking me deixou ansioso. Eu me sentiria culpado pelo resto de minha vida se não conseguisse fazer meu filho MEU FILHO um rubro-negro apaixonado, como foi meu pai e como sou eu. A dor de Laio seria minúscula perante a minha, se à frente do Oráculo de Delfos eu ouvisse que meu filho seria, sei lá, vascaíno (alho alho alho fumo de rolo).

Meu filho ainda é um infante, 6 anos de gabolices e descobertas, e eu já ando apreensivo por seu pouco interesse por futebol. “É coisa da idade”, me dizem. Não tenho lembranças de infância (minha vida consciente começa já quase na adolescência), apenas flashes esparsos, e muitos desses flashes incluem o Flamengo. Durante toda a minha primeira idade o Flamengo era o time a ser batido, o megacampeão, vencedor de um campeonato mundial de clubes. A paixão de meu pai permeia essa construção de personalidade, e o Flamengo constante. Meu Miguel é elétrico demais, não consigo que ele fique parado assistindo a um jogo. Mas tento. Ele já começa a ver nexo no futebol (sem dúvida com o auxílio das terapêuticas sessões de FIFA no videogame), então decidi que inocularia o veneno da maneira mais eficaz possível, como foi feito comigo: levando-o ao Maracanã.

E em um Flamengo e Boavista, numa quinta-feira, ele fez sua estreia. Achando que a assistência seria baixa, devido ao dia e horário ingratos, saí de casa com o tempo apertado e cometi um erro gravíssimo: subestimei a torcida do Flamengo. Encontrei o entorno do Maraca tomado por um mar de vermelho e preto. Famílias inteiras, gringos, casais de namorados e os loucos de sempre, estavam todos lá. A fila para comprar ingresso era infinita, sem indicações de início ou movimento. Mesmo os cambistas eram escassos, creio que nem eles acharam que um jogo tão morno atrairia tanta gente. Parados ali, sem solução, temi que o tiro me atingisse o pé, e a experiência traumática se fixasse em sua mente de criança com mais força que meu amor pelo rubro-negro.

Após algumas alternativas e manobras – nem todas nobres, mas o futebol perdoa – conseguimos o ingresso. Quando conseguimos entrar, já passava dos 30 minutos do primeiro tempo. Acomodamo-nos como pudemos, em um cantinho, para esperar o intervalo que nos desse água e algum conforto. Miguel estava meio tímido, meio cabreiro com tanta gente, e com o (pouco) interesse ofuscado pela tensão. Dois minutos de acréscimo, apita o juiz, fim da primeira etapa, vamos ao bar do estádio. Fila, água, guaravita, batata frita, volta, arruma um lugarzinho melhor e segunda etapa em curso.

E aí se deu o pulo. A epifania. Estávamos atrás do gol do Boavista, e aos onze minutos, em um lançamento feliz do garoto Nixon, o veloz Marcelo Cirino dispara pela intermediária adversária com apenas um zagueiro em seu encalço, bate cruzado e estufa a rede. Pronto, meu filho agora não apenas estreava no Maracanã, mas via seu primeiro gol, bem de perto. E gritava. E me abraçava, e via que todos em volta comungavam do mesmo credo, sentindo-se finalmente em casa. Até o final do jogo, já cantava todas as músicas, batia palmas, pedia passe para a lateral, e se encantava com a ôla. Na descida da rampa pediu para se somar ao coro de xingamentos aos rivais históricos, e eu deixei (com ressalvas de que apenas o estádio de futebol era zona franca de palavrões, paternidade é coisa séria). No meio daquela multidão vitoriosa, percebi que a semente agora estava bem plantada. Ao chegar em casa, contou e cantou para a mãe sua experiência, efusivo. Dormiu sujo, com a camisa e a faixa que sacudira com tanto vigor e suor.

Eu sei, pode babar ainda, mas eu sou covarde, haverá outras doses em breve. Afinal, tenho uma missão a cumprir: a de que meu filho varão envergue o manto sagrado com tanto orgulho que eu, e que um dia, num futuro distante (espero) essa herança o ligue a mim como sou ligado a meu pai.

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