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Dejorge terá mais dificuldades no 2º turno, diz analista



Após a ressaca eleitoral, batemos um papo com o cientista político e editor-chefe do Jornal Daki, Helcio Albano, para analisarmos os resultados do pleito em 2 de outubro.

Rodrigo Melo: E aí, os resultados te surpreenderam?

Helcio Albano: Nem um pouco. Com a exceção da Aparecida (Panisset), que foi um ponto fora da curva, o gonçalense novamente impede a reeleição de um prefeito. Até o mundo mineral sabia que Neilton Mulim era mal avaliado, com uma rejeição altíssima, o que fatalmente o levaria à derrota, mas não se sabia que seria uma derrota doída como essa, tombando ainda no 1º turno.

O formato da campanha, depois da contrarreforma aprovada no Congresso, que cortou o tempo pela metade de 90 para 45 dias, privilegiou candidatos mais conhecidos e com maior estrutura, que foi o caso de José Luiz Nanci e Dejorge Patrício, que disputarão o 2º turno. O tempo exíguo de televisão para esses dois candidatos acabou não sendo um problema fatal, porque foi muito bem compensado no trabalho de rua, que é o que ganha eleição.

RM: O que aconteceu com Mulim?

HA: O prefeito foi vítima de acontecimentos alheios à sua vontade e dos próprios erros, que foram muitos. Os protestos de 2013 encerraram de forma abrupta e traumática a lua de mel dele com a população. Foi uma baita azar político que as reivindicações tenham sido exatamente sobre transportes e em cima da maior promessa de campanha dele que foi a passagem a R$ 1,50. Coisas como 'pinóquio' e 'mentiroso' foram coladas na testa dele e não saíram mais.

Um outro problema grave foi o fatiamento excessivo do seu governo por um lado, e a concentração inacreditável de poderes no seu então secretário Sandro Almeida por outro, que era para muitos quem de fato governava a cidade. Essas coisas deram uma sensação difusa na população e no meio político de negligência e omissão de Mulim com a cidade.

Paulatinamente o prefeito foi perdendo apoio político que se materializariam em duas candidaturas saídas de suas costelas: Dilson Drumond e o próprio Dejorge. Quando, enfim, ele tenta tomar as rédeas do governo em julho de 2015 já era tarde. Algumas ações na área da saúde deram visibilidade ao governo, mas não foram suficientes para desfazar o estrago. E o resultado é esse.

RM: Como fica o panorama político após o 1º turno?

HA: Não há mudanças significativas no quadro político municipal. Por um lado, o que tem de mais tradicional na política, à direita, representado por Nanci. Por outro, a continuidade de uma representação evangélica pentecostal forte na candidatura Dejorge. Porém, com um detalhe: se antes Aparecida aglutinava para si estas forças, agora é a Igreja Universal que todos sabemos ter um projeto de poder concreto, tendo criado para isso um partido, o PRB.

Agora, uma novidade interessante é o surgimento de dois novos grupos políticos que se mostraram competitivos e que, obviamente, não serão desprezados nas mesas de negociação de apoios no 2º turno. Tanto Marlos Costa quanto Diego São Paio arregimentaram para si quase 19% dos votos válidos, e isso com certeza terá peso agora e daqui para frente. São grupos que se consolidam e que se tornam atores políticos importantes na cidade.

RM: Como você explica a desidratação de Brizola Neto?

HA: As pessoas viram nele oportunismo eleitoral, de modo ainda mais profundo do que com Adolfo Konder, que perdeu uma eleição ganha por trapalhadas na última semana de campanha em 2012, e não porque era 'forasteiro'. A desidratação de Brizola Neto foi muito bem trabalhada nas redes sociais depois de ter-se percebido uma espécie de estelionato publicitário, envolvendo o velho Brizola e Aparecida Panisset. Aliás, tudo começou aqui neste jornal.

RM: E as pesquisas, que davam Brizola na cabeça?

HA: Pois é, até soltaram outra, na véspera da eleição, que dava Mulim na frente. Olha, deve-se ter muito cuidado com pesquisas, ainda mais em cidades periféricas como São Gonçalo, as maiores vítimas de picaretagem estatística. Pesquisas eleitorais determinam sim intenção de voto, isso é fato. Elas deveriam ser apenas feitas e divulgadas por instituições públicas a no máximo sete dias antes do pleito. Nesse ano, o mais prejudicado foi Marlos Costa, que em todas as pesquisas patinava entre 2,6% e 3,5%, e no final teve 10,16% de votos dos gonçalenses. Quantas pessoas deixaram de votar nele? Quem vai pagar por isso?

RM: Depois do resultado, muita gente acusa o gonçalense de não saber votar...

HA: Isso é uma grande bobagem. Só não sabe votar quem não sabe manusear a maquininha. Esse tipo de afirmação é elitista e preconceituoso. As pessoas votam com alguma consciência e interesse pessoal. Há campanhas que chegam nas pessoas e outras não. Há mensagens melhor elaboradas e compreendidas e outras não. O que devemos discutir são as regras de campanha que privilegiam algumas candidaturas em detrimento de outras; seja por tempo de exposição em rádio e tv; seja pelo poderio econômico de alguns candidatos que conseguem atingir as franjas da cidade, como foram os casos de Nanci e Dejorge.

RM: Qual o peso que a internet teve na campanha em SG?

HA: Diversos especialistas afirmam que as redes sociais têm como função muito mais desconstruir do que construir candidaturas. Sob esse ponto de vista as redes sociais tiveram um peso enorme no resultado final com a desconstrução do Brizola Neto, como dito anteriormente.

Diego São Paio, que foi quem de longe melhor utilizou as redes sociais, de modo criativo e inovador, não logrou êxito eleitoral, porque sua candidatura não teve base social real. Ainda está para ser provado aqui e em qualquer lugar que redes sociais por si só criam base social a ponto de, a partir delas, conseguir um bom resultado eleitoral.

RM: Como será o embate entre Nanci e Dejorge?

HA: Tudo dependerá de como as forças políticas e partidárias irão se movimentar a partir dessa semana. Os dois têm pontos fortes e fracos como qualquer político, mas Dejorge encontrará mais dificuldades no 2º turno por estar visceralmente vinculado à Igreja Universal, que tem uma rejeição histórica em parte significativa da sociedade, inclusive entre evangélicos tradicionais, como batistas, metodistas etc. Será vital para o candidato do PRB costurar alianças amplas que sinalizem para o eleitorado que a Universal não terá ingerência em seu governo.

Nanci tem contra si o peso do tradicionalismo político e uma atuação parlamentar no mínimo apagada, tanto como vereador como deputado.

Nenhum dos dois apresentaram programas de governo que empolgassem a população. Resta saber, se nas negociações com outros partidos, alguma coisa será aproveitada pelos candidatos. De qualquer forma a eleição está em aberto e qualquer resultado é possível no 2º turno, quando geralmente abstenção e nulos/brancos crescem. Quem melhor mobilizar seu eleitorado leva a eleição.

RM: E a nova configuração da Câmara, como enxerga?

HA: A primeira leitura que faço é que ela piorou e muito. Já não teremos ótimos vereadores que foram Marlos e Diego São Paio, que concorreram à prefeitura. E também não teremos Marco Rodrigues e Dudu do Catarina, que se destacaram na atual legislatura mas não se reelegeram.

O próximo prefeito vai ter uma pedreira pela frente com um parlamento fundamentalmente fisiológico.

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