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'Os tristes e alegres sofrimentos da gente'



Não basta ao homem o fardo de viver. É imprescindível ainda viver com certa melancolia. Diante desta vida grosseiramente feita para nós, por um deus impiedoso ou por um dantesco universo, esperar que nela se encontre a felicidade é, no mínimo, inocente.

A alegria, sempre constante nos rostos alheios, assombra continuamente a vida dos melancólicos. Ainda assim, a melancolia é parceira: ela não decepciona. Ninguém que não espera a felicidade, não encontrando-a, desencanta-se; o tempo corrobora sempre a certeza de que a vida nada mais é do que “os tristes e alegres sofrimentos da gente” (João Guimarães Rosa).

A melancolia puxa o meu corpo para a cama. Ela senta-se à mesa comigo para o café. Não compreendo o que ela diz. Não sei por que ela insiste comigo. Ela apenas continua me olhando, imóvel. A tristeza vem com o vento, que toca o meu rosto. Ela tem o sabor de cada alimento que levo à boca durante o dia. A tristeza toca meus dedos, disfarçada de alegria. Nem as cordas de aço eu ouço mais, porque elas também soam tristeza. Em cada trote do meu cavalo, em cada roupa trocada, em cada rosa colhida (por incrível que pareça!), lá está ela: firme.

Algumas pílulas diárias poderão contê-la? Bastarão contra as suas atraentes sugestões?

Acostumo-me. Nem tão triste a tristeza é assim. Como a vida inunda-se de melancolia, sinto que ela está no meu DNA. Sendo genética, já não posso mais viver sem ela. A melancolia me fala todos os dias, ela não cede. Somos amigas, aceitamo-nos, cordialmente. Companheira fiel ela é! O fim da melancolia será o meu fim. Como escreveu Adélia Prado, “por prazer da tristeza eu vivo alegre”.

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