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'Favela 2' é dinâmico e reafirma a força da cultura periférica carioca


É o grito de um povo por melhorias, em sua maioria de negros, discriminados, mas que não esmorecem e tampouco abaixam a cabeça para os algozes de nossa sociedade hipócrita e preconceituosa por excelência.


“É som de preto, de favelado. Mas quando toca ninguém fica parado”. Com o refrão dos MC’s Amilcka e Chocolate, amigos da antiga deste humilde que vos escreve, o Daki apresenta o artigo especial do mês: Favela 2 – a gente não desiste.

A prefeitura ameaçando derrubar a favela, o miliciano indicando um pastor para presidente da Associação de Moradores, um baile de 100 anos de uma língua de tamanduá querida por todos, uma cria do beco que retorna do exterior com a filha esculachando geral no inglês, um pagodeiro em crise conjugal por seu nudes estarem circulando nas redes sociais, uma grávida de trigêmeos que deixa seu marido de cabelos em pé com desejos bizarros, são alguns dos tópicos de Favela 2.

Com direção de Márcio Vieira e texto de Rômulo Rodrigues, essa montagem dá prosseguimento ao Favela 1, que ficou em cartaz durante cinco anos e que levou mais de 80.000 pessoas aos teatros do Rio e Grande Rio.

Não se trata, porém, de um musical propriamente dito, pois não utiliza de muitas músicas para contar a história, mesmo que haja a presença de músicos do início ao fim no palco. É dinâmico e aposta todas suas fichas nos diálogos para atingir o espectador, incluindo solos esporádicos que comovem o coração até mesmo daquele tiozinho que nunca pisou numa favela. Mas que depois de assistir Favela 2 vai passar a frequentar e aprender os passinhos da coreografia de Sueli Guerra.

Os atores dosam as ações psicológicas e físicas dos personagens que representam. Paz e violência, dores e amores, mágoa e perdão, fé e descrença, enlaces e o jeito de quem vive/sobrevive numa favela são retratados na peça, tendo o cenário conjugando com o visagismo e os figurinos da localidade levados para cena com a simplicidade de uma favela nua e crua.


Transformam o lixo em luxo, os detritos em obras de arte, para melhor apresentarem o outro lado da favela, que muitas vezes a grande mídia não mostra, preferindo o neguinho tombado no beco abraçado a um fuzil, na manchete de capa, para lucro maior nas bancas. Mas eles preferem outras imagens que representem o seu dia a dia: as imagens da vitória, do respeito, do espaço junto ao sol, do calor humano, da solidariedade, da compaixão com o irmão da favela.

O samba não desistiu e tornou-se Patrimônio Cultural. Mais tarde o mesmo aconteceu com o funk, que desceu as ladeiras sofridas e ganhou as coberturas da Avenida Atlântica, as mais badaladas casas de shows das grandes metrópoles. Talvez sejam esses alguns dos motivos de Favela 2 não desistir de prosseguir com geral no mesmo barco, acreditando na multiplicação dos valores sociais, humanos e culturais cruzando os mares cênicos.

Na birosca da entrada principal da favela, bebendo uma gelada e ouvindo as canções que Xande de Pilares fez exclusivamente para o espetáculo, desenrolamos um papo com alguns desse bonde que é grande, o que torna impossível reunir todos, mas que sintam-se aqui representados pelos mesmos.


Vilma Melo - Prêmio Shell 2017/Divulgação

André Santana: O que você sentiu, Márcio Vieira, quando recebeu o texto para dirigir?

MV: A idealização do Favela 1 é minha e do Rômulo Rodrigues. Surgiram mais de 30 personagens e começamos a enxugar. Feito isso, o Rômulo começou o processo de criação, que durou bastante tempo. Depois de tudo concluído, bateu aquele friozinho na barriga e um “seja lá o que Deus quiser”. No Favela 2, quando eu li chorei e novamente disse “seja lá o que Deus quiser” (Risos). Confesso que fiquei receoso, com um elenco de 21 atores, 4 músicos, técnicos e sem patrocínio.

AS: Rômulo Rodrigues, você colocou em Favela 1 ou no 2 algum fato verídico de quando morou no Andaraí ou em Vila Isabel?

RR: Coloquei sim, amigo. Morei perto do Morro dos Macacos, em Vila Isabel, que me inspirou alguns personagens. Sempre tive a curiosidade de como era conviver tão de perto com a violência e ao mesmo levar uma vida normal. Só quem está dentro das favelas sabe como é viver por lá... E esse questionamento eu levei para o texto. Já a pastora Elisa, interpretada por Cinthia Andrade, foi inspirada em uma prima, que não tem preconceito com outras religiões. Talvez se eu não tivesse convivido com ela, jamais eu teria o pensamento de que gente séria pode transformar a vida das pessoas através da Palavra.

AS: Daniel Almeida, você é um jovem de bastante talento. Na sua opinião o espetáculo é real ou foge da realidade?

DA: É real. Mostra a realidade da favela de forma cômica, que muita gente não conhece. É emocionante e direto. Estou muito feliz fazendo parte desse trabalho.

AS: Gisele Castro, você está desde o elenco de Favela 1. Portanto, o que isso representa para você?

GC: Para mim representa tudo. Muitos retratam a favela de modo negativo, com violência e pessoas perigosas. Mas a verdade de lá é outra, a maioria é gente de bem, trabalhadora, talentosa e que precisa de oportunidades para realizar seus sonhos. E acima de tudo de respeito.

AS: Você esperava tanto sucesso no “Favela 1”? E por que vocês ainda não conseguiram patrocínio?

RR: A gente sempre acredita no sucesso e trabalha pra isso, né. (Risos). Mas teatro você sabe como é: uma caixinha de surpresas. E o sucesso do 1 a todos nós surpreendeu, ficamos impressionados, as pessoas assistindo várias vezes, trazendo grupos. Foi incrível! Daí, então, resolvi escrever o Favela 2. E quanto ao patrocínio já ficou bem claro que é preconceito pelo tema, pois nenhuma empresa quer ligar seu nome a “favela”. Certa vez, recebi um e-mail do marketing de uma dessas empresas que tentei o patrocínio, dizendo que amaram nosso trabalho, mas que estavam receosos ao associar o seu nome ao do nosso espetáculo, temendo perder novos clientes.

AS: Vilma Melo, você faz a dona Vilma, mãe do pagodeiro Juvenal, sua xará. Tem um solo seu que deixa a plateia perplexa e ao mesmo sorrindo. Fala um pouco dela pra gente.

VM: A Vilma é uma mulher temente a Deus. Orgulhosa, determinada e que jamais assumiria num programa de TV suas fraquezas como mãe. Tem personalidade forte, alguns preconceitos, mas no seu íntimo tem um afeto enorme por Juvenal, ainda que morre de amores pelo outro filho, Manuedson. Mas no fundo ela gostaria de dizer “você é meu orgulho, Juvenal”.

AS: Qual o objetivo principal desse espetáculo na sua visão, Leandro Santana?

LS: Discutir questões sérias sem tomar partido e com responsabilidade. Mostrar as feridas da sociedade que ainda estão abertas. No Favela 2, há uma crítica social mais contundente que o 1, eu acho, pois trata do amor consciente para vivenciar o dia a dia da periferia.

AS: O que dizer de seu personagem, Daniel Almeida?

DA: Eu faço o Fiel Kadu, um evangélico que no 1 passou pela “cura gay” (Risos). Ele deposita sua fé na igreja mas vive preso a sua própria realidade que é o homossexualismo, coisa que sua religião não permite. Portanto, ele demonstra atitudes cômicas, que eu prefiro que as pessoas confiram de perto do que contar tudo aqui.

AS: Você entrou em Favela 2 ou vem desde o 1?

LS: Venho desde o 1. Faço o Osmar desde 2012. É um personagem bem divertido e que se estressa com os desejos da esposa esperando trigêmeos. Eu me divirto muito.

AS: O público se identifica com o que vê, Gisele?

GC: Com certeza! O tema "favela" está nas novelas, no teatro e no cinema. Portanto, precisa de mais vozes e investimentos sociais, educacionais e culturais. Favela 1 e 2 dão visibilidade a esse ambiente social e levantam questões como os preconceitos racial e religioso. E tem o empoderamento feminino, a ausência da Segurança Pública e o mau uso da internet, que a minha personagem Jane, traz consigo.

AS: Como foi colocar em cena Ferrugem, Xande de Pilares, Bom Gosto, Vem pro Sereno e o Mumuzinho?

MV: Fácil não foi. Mas eles estavam dispostos e acabaram entrando no jogo. Divertiram-se muito, inclusive. Criamos personagens para eles. O Vem pro Sereno foi a história de um grupo de pagode que passava o tempo todo fazendo vaquinha para conseguir lançar seu primeiro CD e que se chamava “Sai do Sereno”. Somente dona Jurema era quem colaborava, com esperança deles tocarem na sua festa de 100 anos. (Risos)

AS: Vilma, você morou em alguma favela carioca? E como foi vencer o Prêmio Shell de Melhor Atriz em 2017?

VM: Não conheci a realidade das favelas no seu dia a dia mas eu sempre morei no subúrbio que é cercado delas. Tive a oportunidade de estudar em boas escolas, graças ao sacrifico de minha mãe, que era funcionária pública. Mas quando eu olhava a meu redor... eu era a única. Melhor dizendo, eu e meu irmão, apenas, com oportunidades de um bom ensino escolar. E quanto ao Shell ano passado... Foi muita emoção. Muita, muita, muita! E cada vez que eu vejo os pretos seguindo seus caminhos, abraçando suas escolhas, eu vibro. Somos vitoriosos! Se o plano é acabar com o negro eu aviso: morre 1 e nascem 200. Somos fortes, somos madeiras de lei.

Diferente de algumas peças teatrais e filmes que dão ênfases apenas na violência no interior da favela, onde quem realmente lucra são os financiadores do crime organizado e a grande mídia, tendo em vista “a carne mais barata do mercado é a carne negra”, como diz a canção, eis que surge um espetáculo que ultrapassa os limites das paredes perfuradas pelas guerras do tráfico, abordando amor, paixão, respeito, inclusão, cores, traços, louvores e batuques.


Ficha Técnica

Idealização: Rômulo Rodrigues e Márcio Vieira

Texto: Rômulo Rodrigues

Direção: Márcio Vieira

Assistente de direção: Milton Filho

Direção de produção: Rômulo Rodrigues e Márcio Vieira

Elenco: Thiago Justino, Vilma Melo, Sarito Rodrigues, Dério Chagas, Renata Tavares, Hugo Moura, Tito Sant’Anna, Cinthia Andrade, Dja Marthins , Leandro Santanna, Paula Pardón, Dilene Prado, Ana Paula Quevedo, Natalio Maria, Helena Giffoni, Jefferson Melo, Daniel Almeida, Henrique Sathler, Walace Fortunato, Julio Nunes, Gisele Castro, Claudia Leopoldo e Vinicius Rodrigues

Stand- in: Hugo Carvalho, Jorge Jeronymo, Peterson Christopher

e Maria Zenayde

Músicos: Caio Martins, Leandro Lopes, Jorge China e Patrick Angello

Direção musical: Márcio Eduardo Melo

Músicas inéditas: Thiago Thomé e Jéfferson Souza (Jeff SS)

Coreografia: Sueli Guerra

Iluminação: Djalma Amaral

Cenário: Derô Martin

Figurinos: Ricardo Rocha

Preparação vocal: Pedro Lima

Visagismo: Vinny Rodrigues e Jenifer Demétrio

Fotografia: Fernanda Sabença e Marden Nascimento

Programação visual: Leandro Antonio

Assessoria de imprensa: Vitor Minateli

Produção: Milton Filho e Gilbert Magalhães

Realização: PRAMA Comunicação e Sobradinho Cultural

SERVIÇO

Teatro João Caetano, s/n., Praça Tiradentes, RJ.

Sexta e sábado (19h30) e domingo (18h)

Ingressos: R$ 40,00 R$ 20,00 (meia) R$ 15,00 (lista amiga / nome para: producaofavela@gmail.com)

Classificação: 14 anos


André Santana é escritor, poeta, ator, produtor artístico e colunista de teatro do Jornal Daki.

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