O Matador de Santas – cuidado com quem pede 'por favor' para matar


“Quando um serial killer começa assustar a cidade, matando mulheres com nome de santa, Jorgina sente que ali pode estar sua chance de reconhecimento na sociedade, entregando para a polícia o assassino em série, mesmo não sendo ele o real culpado”.


DIVULGAÇÃO

Com texto do premiado Jô Bilac e direção de Daniel Ferrão, “O Matador de Santas” encerrou sua temporada no domingo, 26, no Teatro Maria Clara Machado, com muito sucesso. A montagem do Grupo Teatral Loucatores teve sua estreia no dia 3, para convidados e ali já anunciava que o espetáculo encantaria o público geral, nos demais dias de apresentações.

Jorgina é uma senhora histérica e paranoica da classe média carioca. Vigia o vizinho da janela de casa e aporrinha o delegado com suspeita de ser ele o assassino em série; costuma oprimir sua filha, Queridinha; e humilha seu marido, Baltazar, o tempo todo. Mas, de outro lado, ela bajula doutor Diego, seu genro médico. Uma típica senhora de deixar qualquer um com “um olho no padre e outro na missa”. E que, coincidentemente, o ambiente da peça remete a isso.

- Esse espetáculo é muito importante para a nossa trajetória, pois trata-se de um nome tão importante da dramaturgia nacional, o de Jô Bilac. - explica Anderson Alcantara, um dos produtores e responsáveis pelo Grupo.

A proposta de encenação trouxe cada personagem interpretado por dois atores ao mesmo tempo, seguindo a linha de pesquisa e de identidade do Loucatores, que funcionou muito bem. A segurança do elenco, ainda logo na abertura da peça, apontava que todos entrariam em sinergia e permaneceriam até o fim. E foi o que aconteceu, com essa trupe talentosa da Zona Norte carioca, merecidamente aplaudida num dos tradicionais palcos da Gávea, durante toda a temporada de agosto.

- Construímos esse universo duplo, para as variadas perspectivas. Essa foi uma de nossas maneiras a exprimir os conflitos psicológicos dos personagens, ora antagônicos, ora idênticos. E, plasticamente, esse recurso acabou dando uma real impressão de como seria insuportável para os quatro personagens viverem naquela mesma casa, onde assim parecem ser oito. – explica Ferrão.

Recheada de suspense e relações conturbadas, a tragicomédia arranca risos e também pressiona os peitos nos momentos de angústia, de dores e de felicidade dos personagens.

- Os textos de Jô Bilac têm dessas características que são bem fortes. E em “ O Matador de Santas” não podia ser diferente. As pessoas riem, de repente seja pelo absurdo das situações, ou quem sabe por se identificarem um pouco com a história. – revela Léo Torres, ator e criador do Grupo, que comemora 12 anos no corrente 2018.

Cenários que ora são capelas, ora são janelas de casa ou até mesmo confessionários, movimentam-se pelo espaço cênico. O figurino além de criativo faz lembrar o hábito religioso, talvez as vestes de baixo de alguma imagem sacra, onde as luzes em tons sutis enriquecem o visagismo.

Palavras que ferem até sangrar, dentro dos olhos, vilanias às escusas, situações às avessas, são partes do banquete dessa família. De um lado, a histeria da mãe, e do outro, o enfastio do pai. Tudo isso serve de impulso para a filha buscar uma vida plena, feliz, longe daquele teto maldito. Como? Casando-se com Diego, ainda que seu amor aparente ser menor que o de abandonar aquele “lar amargo lar”.

O envolvimento de Queridinha com Baltazar é mais terno que com Jorgina. Ele, muito quieto, revela que acima de tudo quer vê-la feliz, casando-se ou não. E ela, por vingança e despeito, não comunica a mãe sobre a nova vida a dois, para seu total desespero. Isso só faz aumentar a obsessão de Jorgina entregar à polícia o assassino em série, com descrições infundadas sobre o misterioso serial killer, que ela vem apontando ser o culpado desde o início na delegacia.

As sentimentalidades dos personagens dessa família puderam ser sentidas pelos espectadores, onde no olhar de cada um deles via-se nitidamente o reflexo das cenas ali representadas, com muita convicção e um desfeche tão impactante.

Ficha Técnica

Elenco: Agatha Duarte, Anderson Alcantara, Débora Soares, Dei Ribas, Dyogo Botelho (stand in), Fabiano Bernardelli, Léo Torres, Natalia Di Vaio e Rohan Baruck.

Produção Artística: Anderson Alcantara e Léo Torres

Produção executiva: Rohan Baruck

Preparação Corporal e Direção do Movimento: Fernanda Dias

Cenário: Cachalote Mattos

Figurino e Visagismo: André Vital

Costura: Caio Braga

Design de Luz: Luan de Almeida

Trilha Sonora: Wendel Pinheiro, Daniel Ferrão e Marcio Fuentes

- Espetáculo contemplado com o Edital Novas Cenas 2014.

- Representante da Mostra de Teatro Sesc da Zona Norte 2015.

- Vencedor de 'Destaque de Figurino' para André Vital, no Prêmio Paschoalino de Teatro - 2015. Indicado em 12 das 16 categorias, entre elas Melhor Espetáculo e Melhor Direção.

- Prêmio de Melhor Ator Coadjuvante para Rohan Baruck e indicação de Melhor Atriz Coadjuvante para Agatha Duarte, no 12º Festival Nacional de Teatro de Duque de Caxias.


André Santana é escritor, poeta, ator e produtor cultural.

#CRÔNICAS #ARTIGOS #TEATRO #ANDRÉSANTANA

MALUGA_2.jpg
QV1.jpg
GRÁFICA_RS_2.jpg

To play, press and hold the enter key. To stop, release the enter key.