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Museu da imigração em São Gonçalo: A hospedaria judaica da Ilha das flores, por Erick Bernardes



O que mais me desgosta neste país é ver nossa riqueza cultural ser tratada com tanto descaso. Há duas semanas, por exemplo, a tristeza de assistir na tevê ao incêndio do Museu Nacional me fez pensar sobre um outro espaço que carece de atenção. Pois bem, falo do Museu da Imigração da Ilha das flores; transformado em Centro de Memória e Cultura na cidade de São Gonçalo, não é difícil perceber que toda a construção exala humanidade.

Espaço onde pouca gente conhece e que outrora serviu de estalagem a milhares de judeus imigrados da Europa, os objetos ali expostos parecem ter sido doados de bom grado por gente muitíssimo zelosa. Lá a energia é sadia, lembra até hospedaria em balneário tropical de decoração antiga. Pois é, lugar onde a nossa memória faz a curva e foge às narrativas de torturas e assassinatos tão contemporâneos de nós, brasileiros. Quando chegamos ao local, um historiador com ares de recém-formado veio nos recepcionar: “Bom dia!”. Funcionário agradável, Giovani mostrava-se loquaz e empenhado em narrar sobre muitas famílias vindas da Itália, Espanha, Alemanha, Croácia, dentre outros países mundo afora. Segundo ele, o espaço pertence hoje ao Complexo da Marinha do Brasil e encontra-se aberto a qualquer pessoa que queira agendar visita. Bom saber, segredei baixinho, conhecimento nunca é demais. Terreno de boas paisagens, construção arejada e supreendentemente bem conservada. Incrível. Acervo organizado até os mínimos detalhes.

Assim são os prédios da hospedaria cujas raízes culturais guardam atualmente histórias de um pequeno universo de coisas e fatos. Ao sentar-se sobre a mureta da varanda da bela construção colonial, o guia abriu um enorme livro de datas e nomes, fixou o olhar nas pautas e imergiu na trajetória passada desse povo semita tão interessante. Ficamos esperando o jovem professor continuar falando. Não falou. Silêncio. Notei gotas de lágrimas embaçarem-lhe os óculos multifocais. Ainda era cedo: olhei ao redor. Os colegas estavam distraídos junto ao lago com dois casais de cisnes brancos e lindos, branquíssimos. Foi quando resolvi conversar: “Dizem que os cisnes raramente emitem sons. Li no livro de Eliete Veitsman que quase sempre se calam quando estão longe do lugar onde nasceram”. Continuou calado, o nosso guia não quis mais narrar, havia algo estranho no ar. Perguntei novamente o nome dele, insisti.

— Giovani Schwan, muito prazer, sou membro do comitê estudantil judaico do Brasil.

Sensação de tristeza pairou no ar, que pena, funcionário legal. Mas decidiu encerrar a visita antes da hora combinada: necessitávamos ir embora. Pois é, acho que falei demais.


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