Buscar

Incêndio no Gran Circo Norte-Americano e as cinzas do tempo, por Erick Bernardes



Olhos vidrados e dedinhos apontados aos detalhes mais insignificantes, quando os sapequinhas Marilene e Babá mantinham-se escondidos e invisíveis aos fiscais cobradores de ingressos. Ao redor, mulheres, homens e crianças, cada um à sua maneira específica de demonstrar ansiedade. Sim, expectativas, assim posso descrever o dia do espetáculo tão esperado: tudo pronto no Gran Circo Norte-Americano e suas maravilhosas atrações. “Senhoras e senhores, respeitável público, o espetáculo vai começar”, anunciou o nada criativo locutor, diretor e dono do circo, Nicolau Stenovich.

Mais palmas vindas da plateia, assovios e gritos também aos montes — e as crianças maravilhadas junto à base da arquibancada, em meio às poucas réstias de sombras que havia lá no fundo. Certamente o casal de amiguinhos Marilene e Babá jamais imaginaria que algo monstruoso iria acontecer (ninguém poderia imaginar). Pois é, infelicidade extrema, um dos maiores incêndios do mundo estava por acontecer em Niterói: o fogo iria consumir tudo que estivesse abaixo das lonas coloridas.

O som de fundo que preenchia o ambiente era conhecidíssimo na época por causa da música-tema do Filme Doutor Jivago. Claro! Unir musicalidade à cinematografia como contexto circense contribuiria para o deleite dos expectadores. Exato, jogada, esperteza de marketing. E foi sob essa trilha sonora que o trio de trapezistas Nena, Grotto e Vicente Sanches assistiu ao mundo de muita gente ruir, ou pior, viu tudo aquilo virar cinzas. Ao sentir um deslocamento estranho e quente no ar, Nena percebeu a labareda azul a crescer e a tomar rapidamente a parte alta das paredes feitas de nylon que compunham toda a arquitetura-base do picadeiro. Os trapezistas saltaram logo sobre as redes de segurança e dirigiram-se à saída dos fundos. Desespero, obviamente, estavam apavorados. Isso foi o suficiente para a grande parte do público entrar em pânico, instantaneamente — e a correria generalizou-se. Um formigueiro de gente a zanzar sem saber aonde ir e gritando. Resultado? Centenas de corpos carbonizados a marcarem a memória das cidades de São Gonçalo e Niterói.

“Como se fosse uma gigantesca bucha de balão, iluminava o terreno próximo ao quartel niteroiense!”, afirmava a voz do noticiário local. Tudo carbonizado. Material de primeiros socorros foi pedido na rádio. Necessário à população ajudar. Gaze, algodão, antissépticos diversos; panos também para enrolar os mortos foram requisitados. E água, muita água potável (de beber inclusive) para os queimados. Pois eram inúmeros os atingidos pelo fogo. Gente morta e gente ainda viva chamuscadas pelas labaredas cruéis. Impossível a qualquer narrador não se envolver. Sentimentalismo de escritor imaturo? Claro que não, isso é humano: escrever é se pôr no lugar dos outros. Babá e Marilene jamais esqueceriam o horror vivenciado, a lona queimou em segundos, traumatizante a qualquer criança. Quer saber como os dois amiguinhos se salvaram? Pois bem, o garoto agarrou a mão da colega e a puxou para o canto. Lembrou-se do canivete enferrujado que carregava consigo, e com uma força descomunal fez um rasgo imenso que se revelou como segundo útero materno. O caminho de fuga ou uma saída para suas vidas novas, pois o casal de amiguinhos certamente nasceu outra vez.

Dizem que dois grandes cemitérios tiverem de ser inaugurados pelo presidente João Goulart: o de Niterói, chamado de Maruí, e o de São Gonçalo, nomeado de São Miguel. Argumentos na época indicaram a prisão do responsável pela fagulha inicial do fogaréu. Confesso que tenho lá minhas dúvidas se de fato cabe ao acusado a responsabilidade da tragédia. Tempos sinistros na política, o poder autocrático tem suas loucuras — mas prefiro continuar não sabendo. Quanto a Babá, cresceu, envelheceu e aposentou-se como professor de teatro na Universidade Federal Fluminense. Sobre Marilene? Ela narrou-me esta história deitada na cama do Hospital Geral do Colubandê, em julho do ano passado, meses antes de falecer dormindo, por causa de uma insistente pneumonia.


***

Nota do editor: O Gran Circus Norte-Americano estreou em 15 de dezembro de 1961 na na praça Expedicionário, no centro da cidade de Niterói. Dois dias depois, em 17 de dezembro, o incêndio viria a matar mais de 500 pessoas entre os 3 mil espectadores presentes à tragédia. Três homens foram presos acusados de planejar a ação criminosa.

#ARTIGOS #CRÔNICAS #CONTOS #GRANCIRCONORTEAMERICANO #INCÊNDIO #ERICKBERNARDES

MV1.2.jpg
MALUGA_2.jpg

© 2020 POR APOLOGIA BRASIL

  • w-facebook
  • Instagram
  • White Twitter Icon