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Doutor Jurumenha: nome de rua com jeito de bairro em São Gonçalo, por Erick Bernardes


Saio de casa com uma tarefa em mente: achar, no Barro Vermelho, um chaveiro decente que não venha me cobrar os olhos da cara por um servicinho à toa. Lembrei do senhor Evaristo, profissional competente e justo no preço. Pois é, a fechadura da porta da sala empenou. Acho que a chave deixou dentro algum pedacinho de metal envergado. De repente, esqueço a obrigação e me pego a questionar os motivos de haver aqui no município certa rua tão ou mais famosa do que muitos bairros gonçalenses. É como se disséssemos: “senta aí que lá vem história!”. E de fato não dá para ignorar a importância histórica e geográfica da rua pertencente ao bairro do Barro Vermelho. Interessantíssimo, refiro-me à rua Dr. Jurumenha, ponto de referência conhecidíssimo em São Gonçalo. Tem até travessa igualmente nomeada. A esquisitice começa na origem, ou seja, o topônimo exótico já foi sobrenome importante. Excêntrico demais tudo isso, me pergunto: quem teria concebido ideia de batizar um ou outro membro da família com a palavra tupi-guarani usada para designar abóbora doce? Sim, Jurumenha quer dizer abóbora ou jerimum adocicado. Que nome curioso, que coisa! Batismo singular. Será que a plantação do legume chamava tanta atenção assim tempos atrás no Brasil? Não sei, ignoro esses ascendentes de caráter alimentício. Abóbora doce, jerimum, coisa esquisita, eu hein!

Sabe-se que juntamente ao que constituía imponente fazenda nas redondezas, somavam-se ao Barro Vermelho as importantes olarias e pedreiras pertencentes ao proprietário que deu nome à famosa rua. Sim, o advogado cearense Dr. Antonio de Menezes Jurumenha lançou suas raízes por aqui em São Gonçalo. Migrou do nordeste para cá e foi juiz de comarca, comandante militar, delegado, fazendeiro — e há quem garanta que o Dr. Jurumenha manteve laços de amizade e cartas trocadas com o ícone brasileiro Rui Barbosa. Importantíssimo personagem revelou-se o tal doutor e empresário com nome de Jerimum. Ele mantinha intimidade com o nosso diplomata e orador internacional Barbosa. E o que dizer do fato de Jurumenha ter sido primo do famoso médico espírita Bezerra de Menezes? Verdade, fatalmente cairiam os queixos dos mais descrentes pesquisadores ao lerem as correspondências entre o médico kardecista Bezerra de Menezes e o inteligente advogado Jurumenha. Eram parentes, indiscutivelmente, netos do mesmo avô. Considerado homem valoroso, intelectual atuante e também investidor excelente, esse personagem deixou marcada a nossa São Gonçalo. O que não falta é documento de prova: Arquivo Nacional, Casa Rui Barbosa, Real Gabinete Português; lá encontra-se distribuída a caligrafia desse nome importante, tornado um quase bairro fluminense. Necessário, assim, eu deixar de bancar o pesquisador e lembrar do que vim fazer aqui na rua. Para que entrei na Jurumenha mesmo? Ah, lembrei, encontrar o senhor Evaristo, o chaveiro, para abrir a porta empenada lá na minha casa e esquecer o topônimo engraçado. No Barro Vermelho mora o chaveiro, bem na esquina com a placa que leva o nome do advogado cearense. Lá no poste tem duas placas, uma de rua e outra de travessa, ambas com nome tupi de alimento adocicado.


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