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Quando o Exército passa, o gonçalense cumprimenta, por Mário LIma Jr.



Foto: Divulgação

Quando um comboio das Forças Armadas circula pelas ruas de São Gonçalo, cidade da região metropolitana do Rio de Janeiro, o povo para o que estiver fazendo e presta atenção. Os gonçalenses estão acostumados com fuzis, pistolas e granadas nas mãos dos bandidos, mas tanques de guerra, veículos anfíbios e jipes transportando soldados armados despertam a curiosidade popular.

A cidade ocupa a segunda posição no ranking de tiroteios ocorridos na região, de acordo com o balanço dos oito meses de intervenção federal na segurança pública feito pela plataforma Fogo Cruzado. Fica atrás da capital do Estado, que possui seis vezes mais habitantes. No município gonçalense, 169 pessoas foram mortas em tiroteios desde fevereiro, enquanto na cidade do Rio de Janeiro o número chega a 331 mortos no mesmo período, até o dia 15 de outubro.

De fardas limpas, usando óculos escuros e mirando o horizonte, o comboio acelerado de militares parece vir de outro país, mais honesto e organizado. Já as comunidades gonçalenses são abandonadas na sujeira, o lixo não é recolhido regularmente e o esgoto corre livre a céu aberto.

Diante da tensão que acompanha o avanço dos carros blindados, os homens colocam o copo de cerveja na mesa, se levantam devagar e vão para a porta do boteco a fim de ver melhor a cena. Uma vez ouvi um bêbado eufôrico aconselhar o outro: “Tá vendo aí? Eu te falei. Olha o Exército, toma cuidado”.

Os jovens, que costumam falar alto, cochicham nas esquinas sobre o tamanho das armas e seu poder de destruição. As crianças se agarram às mãos dos adultos e viram o rosto para o lado oposto, assustadas. Seu passo amolece, as pernas se embolam. É medo de verdade, que só a criança de localidades dominadas pelo tráfico de drogas conhece.

A bandidagem se camufla, esconde armas, drogas, mas nem sempre se esconde. Fica no meio das pessoas que observam a movimentação militar e atividades como remoção de barricadas, obstáculos que os próprios bandidos reconstruirão logo depois, talvez na mesma noite. Às vezes tem tiroteio, mas não é raro o Exército entrar e sair da favela em silêncio, como o vento.

Ter a companhia da força militar por algumas horas nos lembra que o Estado Brasileiro existe, pelo menos em algum lugar. Traz a ilusão de que, com o Exército na periferia, os traficantes e seu arsenal terão oponentes à altura. No final de cada operação, vemos que elas não fazem nenhuma diferença profunda. O esgoto ainda passa na porta da casa do pobre, as crianças continuam sem opções de lazer. As bocas de fumo voltam a funcionar e a polícia militar raramente é vista.

A intervenção federal se resume ao trânsito soberbo de veículos militares, admiração e espanto do povo. E sempre que as Forças Armadas circulam, a segunda maior população do Rio de Janeiro renova suas esperanças e se levanta para assistir.

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