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Um dia feliz em São Gonçalo, por Mário Lima Jr.



Hoje fez sol, o dia foi lindo. Acordei às 7h com o barulho habitual dos tiros e tomei um banho rápido. Antes de sair de casa, parado no portão, olhei para os lados e não vi ninguém armado na rua, assim me senti seguro o suficiente pra comprar pão. A padaria do bairro tinha sido assaltada 10 minutos antes por alguns moleques que nunca foram vistos na comunidade. Bandidos desconhecidos, mais ousados, talvez recém-chegados do Rio de Janeiro, os clientes diziam.

Na rua em frente à padaria percebi que haviam construído uma barricada nova com terra, pedras e entulho. Obra prima da construção civil, possível apenas com o uso de máquinas de grande porte, erguida em poucas horas durante a madrugada, praticamente sem fazer barulho.

De novo em casa, sentei à mesa da cozinha pra tomar café da manhã mas tive que levantar pra fechar as janelas, o som de funk que vinha do vizinho estava alto demais. Não eram nem oito horas da manhã. O barulho começa cedo nos dias de resenha entre os jovens.

Terminei de me arrumar e no caminho pro trabalho fiquei irritado de verdade. Um cara empinando a moto, fazendo um barulho horrível, passou raspando do meu lado. Não respeitam mais ninguém. Será que é doido e não me viu na rua? Eu andaria na calçada se existisse calçada em São Gonçalo. Quando existem, são apenas uma passagem cheia de lixo, mato ou buraco e o pedestre é obrigado a se arriscar na rua.

Parado no ponto de ônibus, sem banco e sem cobertura, embaixo de um sol capaz de rachar o asfalto, o alívio só veio quando entrei no coletivo. Moro em São Gonçalo há 30 anos e finalmente rodam ônibus na cidade com ar-condicionado, graças ao esforço dos incríveis parlamentares gonçalenses, em especial o vereador Eduardo Gordo, autor do projeto de lei.

Na volta pra casa, após o fim do expediente, tomei um susto. Minha rua estava lotada, um balão tinha acabado de cair. Escalaram o muro do meu vizinho e invadiram a casa dele, tudo por causa do balão. Algumas senhoras, vestidas a caráter, reclamavam na esquina que interromperam sem avisar as aulas de zumba patrocinadas por um candidato a deputado estadual. Ele não foi eleito e ficou revoltado por ter recebido poucos votos nas zonas eleitorais da região.

Deitei pra dormir agora há pouco, cansado. A roupa que eu tinha deixado no varal pra secar mudou de cor, para preto. Tive que lavar, alguém colocou fogo no mato outra vez. Mas o dia foi bom. Por milagre, São Gonçalo guarda certa ligação especial com a inocência do mundo. A luz da lua está iluminando a janela do meu quarto. A noite está limpa, estrelada, e tem um cheiro fresco no ar que não sei de onde vem. Pena que começaram os tiros de novo.


Mário Lima Jr. é escritor.

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