Desafios de uma empregada do Vila Três, por Mário Lima Jr.




Maria é uma guerreira. De segunda a sexta, às 5:30 da manhã, ela desce o Morro da Caixa D’água, em São Gonçalo, com passo acelerado por medo de ser assaltada. No arrastão que teve semana passada, na subida do morro, Maria se livrou por pouco porque atrasou cinco minutos para se arrumar. Quando passou em frente a banca de jornal, soube pela jornaleira que um grupo de pessoas que dão duro e ganham somente um salário mínimo por mês, como Maria, tinha acabado de ser assaltado.

Ela sai de casa tão cedo porque precisa fazer o café da manhã dos patrões, que moram em Icaraí, bairro nobre de Niterói. As crianças, duas meninas gêmeas de 10 anos de idade, gostam de ovos moles. Quando Maria erra a mão e endurece os ovos sem querer, por distração, primeiro toma esporro das crianças, depois do Seu Job. A única que tenta acalmar a tempestade, causada por um ovo mole, é Dona Dalva.

Os filhos de Maria continuam dormindo sozinhos em casa até às 7h. Quando a mãe dela vem, acorda as crianças, de 11 e 8 anos, faz um café e passa a manteiga no pão de um jeito carinhoso que só as avós sabem fazer. Dona Lourdes dá um banho nos netos e os manda para a escola. Se não fosse o problema no joelho, ela os levaria, mas a caminhada até a Escola Municipal Raul Veiga é longa. O menino mais velho vai levando o menor de mãos dadas, em parte andando na calçada, um ao lado do outro. Nos trechos sem calçada, eles soltam as mãos, Bruninho anda na frente, no asfalto, Marcos vai atrás para olhar o irmão e os ônibus passam velozes ao lado, quase atropelando as crianças.

Na última sexta-feira, depois de voltar do passeio na praça com Amanda, a cadelinha poodle de Dona Dalva, Maria perdeu a paciência com Seu Job. O patrão ligou meia hora depois que saiu e disse ao telefone:

– Maria, preste atenção, não fala nada, só preste atenção – como se Maria fosse descontrolada ou estúpida. Pega o meu paletó cinza no armário e dá uma olhada no bolso direito. Esqueci o exame que tinha que trazer pro médico olhar, acho que está aí. Achou, Maria?

A empregada tinha convicção de que parar a faxina para pegar o espermograma do patrão no bolso do paletó não era função dela. Aceitava a humilhação de recolher o cocô de Amanda na rua, mas Seu Job deveria saber como cuidar de si mesmo. Ficou nervosa, magoada, mas não falou nada, obedeceu em silêncio por medo de perder o emprego. Isso que significa perder a paciência para Maria, sofrer e obedecer. Pegou um Uber e levou o exame do patrão até à clínica de reprodução.

O pior trânsito da semana costuma ser às sextas-feiras. No fatídico dia do exame do Seu Job, Maria enfrentou duas horas de engarramento na Alameda São Boaventura e na RJ-104. Quando subiu o Morro da Caixa D’água era noite e a rua estava escura, a Prefeitura não troca as lâmpadas queimadas dos postes de luz há tempos. Chegou em casa exausta e deu um beijo nos filhos, que já estavam dormindo.


Mário LIma Jr. é escritor.

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