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Santa Isabel e a Quinta do Dom Ricardo: recanto histórico de São Gonçalo, por Erick Bernardes



Nunca havia notado o poder tão forte que a memória tem de tomar as rédeas do meu pensamento. Incrível, enquanto dirigia o carro tentando identificar os locais descritos no rabisco do mapa feito à mão, eu me perguntava o motivo de as aulas de História retornarem insistentemente à lembrança. Claro, simples explicação, segredo algum sobre eu pensar no personagem Belarmino Ricardo Siqueira, o Barão de São Gonçalo. É que a vida desse figurão histórico, aquele mesmo que deu nome à localidade pertencente à Santa Isabel, a Quinta do Dom Ricardo, constitui até hoje narrativa emblemática a quem se aventure a desvendar os mistérios coloniais fluminenses. Verdade, um convite ao mergulho do tempo e, de quebra, um pouco mais de aquisição do conhecimento sobre o nosso passado.

Enquanto procurava a rua onde o meu amigo de trabalho morava (e ainda mora), eu imergia na lembrança das aulas sobre a biografia do senhor de engenho Dom Ricardo; talvez o proprietário de fazendas mais destacado na época; possivelmente o mais importante da freguesia gonçalense. Sabe-se que Belarmino Ricardo de Siqueira nasceu em 1791, para os lados de Saquarema, e, assim como seu pai, exerceu cargo militar e chegou ao posto de oficial da Guarda Nacional. Há registros de que, até meados do século XIX, Belarmino aumentou suas rendas junto às terras que tinha. Ampliou suas posses, comprou fazendas, criou gado e erigiu importantíssimas indústrias ligadas aos derivados de açúcar. Habilidoso para negociações, esse filho de militar bisneto de portugueses consagrou-se talentoso caixeiro de comércio. Como empreendedor sagaz, e já de posse do título de Dom Ricardo, ele destacou-se na fabricação e distribuição de produtos e resolveu assumir para si certas responsabilidades políticas em São Gonçalo, localidade ainda não elevada à categoria de município. Dizem que o modo como se relacionava com a corte, a elegância no trato com os amigos, além da administração dos seus muitos escravos, fez dele pessoa famosa e bem vista até pela família real. E não foi à toa o reconhecimento dispensado ao Dom Ricardo, ao lhe agraciarem com o título de Barão de São Gonçalo. De fato merecido; pioneiro no empreendedorismo. Há registros ligados à importância do seus auxílios financeiros prestados ao tesouro da Coroa. Amicíssimo de D. Pedro II ele se mostrou, quem ousaria questionar a atribuição do baronato? Desnecessário também contrapor-se ao título de Coronel da Guarda Nacional e comendador da Imperial Ordem da Rosa, essa honraria tão ambicionada na época, em homenagem ao matrimônio do primeiro Imperador. Indiscutível merecimento. Bastava perguntar a qualquer escravo, sob a sua responsabilidade, acerca da desenvoltura com que Belarmino comerciava e relacionava-se com os outros fazendeiros mundo afora.

Se ainda hoje Santa Isabel constitui um dos mais extensos bairros de São Gonçalo no quesito geográfico, imaginem antes, sem os seus desmembramentos? No monte chamado Alto do Gaia, no topo dos seus 534 metros, os capitães do mato zelavam pelas posses de Belarmino em seus mínimos detalhes. Talvez dentro das Cavernas de Santa Isabel, perto de onde encontra-se atualmente a imponente Fazenda Santa Edwiges, próximo da Igreja Nossa Senhora Aparecida, os escravos fugidos se instalassem provisoriamente, até que conseguissem evasão — caso não fossem recapturados, obviamente. Se, lá no Campo dos Cordeiros, onde atualmente se joga o futebol, encontramos hoje campeonatos de várzea e churrasco de confraternização, quando outrora constituía um largo de acomodação de escravos, certamente o motivo seria a distribuição dos trabalhos braçais.

Impossível não imaginar seres humanos sentados (na melhor das hipóteses) e açoitados pelo capataz. Como não pensar nas pessoas, possivelmente alguns dos nossos antepassados, sob o sol escaldante, no aguardo da ordem do capataz? História triste, porém importante. Sim, decerto contraditória, contudo, é uma das narrativas necessárias para o conhecimento sobre a formação e o desenvolvimento do município de São Gonçalo. Pois é, Santa Isabel e Belarmino Ricardo Siqueira, vulgo Barão de São Gonçalo, obtiveram de fato relevante papel em nossa história.

Bem, melhor foi minha decisão de voltar à tarefa de achar a casa do meu amigo. Porque o pensamento da gente é assim: se deixar, a danada da mente insiste em divagações e nos induz a distrações. O tempo urgia e o fim de semana passaria feito flash. Com certeza o convite para feijoada animava bastante, todavia, a distância é que atrapalhava. Sons de pagode me tiraram do devaneio e, de volta ao domingo de folga, cheguei à casa do meu amigo anfitrião. Chamam aquele lugar de Quinta do Dom Ricardo, sub-bairro com muita história por recuperar. Verdade, lembro-me ainda hoje desse dia em Santa Isabel. Feijoada e cerveja; piscina e conversa animada — e o cheiro da comida gostosa marcando presença junto às demais amizades.

Caso o leitor queira saber mais sobre o lugar, fica aqui a dica: dizem que há até um mausoléu dedicado a esse ícone de São Gonçalo, lá para as bandas do bairro do Caju, no município do Rio. Sabe-se que o barão não se casou nem gerou filhos, teve apenas sobrinhos e um jazigo perpétuo praticamente esquecido em um cemitério fora de São Gonçalo. Pois bem, Quinta do Dom Ricardo em Santa Isabel, lugar com história, reduto importante da memória gonçalense.


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