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Futebol numa favela gonçalense, por Mário Lima Jr.



Assisti uma partida de futebol no campo da Favela Central, no bairro Raul Veiga, e mesmo morando em São Gonçalo desde 1989, aquilo me impressionou. A bola rolando era um evento secundário no meio de tanta alegria e obstáculo na vida do gonçalense.

É difícil explicar São Gonçalo para quem não conhece improviso e pobreza. Por exemplo, tinha gente assistindo o jogo nas duas margens do campo. Mas não pense que havia lugar seguro para sentar. As pessoas torciam de cima da lage das suas casas, sentadas no alto dos muros, no meio-fio e aglomeradas na ribanceira que divide o campo da rua. Algumas ocuparam até a lateral do campo e esticaram as pernas para frente. Quando a bola se aproximava, os torcedores recolhiam as pernas.

Preciso dizer que o campo era horrível, esburacado demais. A bola não corria, quicava o tempo inteiro, inclusive nos passes curtos. Em alguns pontos havia um mato baixo e uma aparência um pouco civilizada. Mas na ponta esquerda tinha uma poça enorme, os jogadores davam bicos fortes na bola para arrancarem ela do lugar.

Os dois times estavam quase perfeitamente uniformizados. Um dos jogadores trazia o número 300 na camisa, imagino que seja fã do filme que Rodrigo Santoro participou. Já o número de outro jogador era 762.

A relação com o juiz era de absoluta falta de respeito. Parecia que o árbitro seria linchado a qualquer momento, tanto pela torcida, que invadia a lateral do campo com frequência, quanto pelos jogadores.

Um dos jogadores pediu para ser expulso. Primeiro ele recebeu um cartão amarelo, por uma falta clara que fez, mas não concordou com a advertência e gritou com o juiz:

– Me expulsa logo então po, me expulsa! – e o juiz puxou o cartão vermelho.

Outro jogador reclamou com o seu técnico na beira do campo:

– Esse juiz é muito merda. Quanto foi que ele ganhou para apitar mesmo?

– Noventa reais – o técnico respondeu.

– Porra, noventa reais pra fazer isso aí? – e o jogador saiu inconformado.

Um árbitro da FIFA ganha R$ 4 mil para apitar uma partida da série A do Campeonato Brasileiro. Mas no Campo Central tudo é diferente. Um dos técnicos resolveu fazer mudanças no time e chamou o jogador que seria substituído. Outro jogador do mesmo time, que não era nem capitão, achou que não era o momento ideal para a substituição, porque o primeiro tempo estava quase acabando, e reclamou. O treinador obedeceu.

Mas na verdade eu assisti pouco do jogo. Perto de mim tinha uma criança de aproximadamente dois anos, andando sozinha pra lá e pra cá, e eu estava com medo de ela cair na ribanceira. O campo fica mais baixo que o nível da rua. A mãe da criança eu encontrei tempos depois, amamentando um bebê enquanto tomava uma cerveja.

O comércio era farto. Uma das faixas da rua ao lado do campo foi fechada por carros vendendo guaravita, churrasquinho, salgados, cerveja e refrigerante. O guaravita, paixão gonçalense, custava um real e o latão de cerveja, cinco.

Tinha até mesinha e isopor na rua, quem quisesse curtir o evento com os amigos, desde que tivessem espírito gonçalense, iriam se divertir. Em uma margem do campo tocava pagode, na outra tocava funk. Dava para ouvir a mistura do som dos dois lados, de qualquer lugar, apesar da gritaria da torcida.


Mário Lima Jr. é escritor.

***

Nota do editor: O texto foi publicado originalmente no blog do autor com o título 'Futebol na Favela'.

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