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Amendoeira: lugar de cultura e peregrinação em São Gonçalo, por Erick Bernardes



Correm boatos de que o nome do bairro Amendoeira não teria origem exatamente na abundância de pés de amêndoa. Equívoco, engano mesmo, quem não se enganaria por causa de nomes ou apelidos? Especialistas afirmam que a planta teria vindo da Índia ou Nova Guiné e se alastrado pelo Brasil. Mas eu mesmo não vi, no Amendoeira, nem uma dessas sequer pra contar história. Decerto nem há tantas árvores da espécie na região.

O senhor Lourenço, dono do ferro-velho da vizinhança, jura que batizaram o lugar devido a um antigo bar sombreado pela copa gigante de uma única amendoeira que lançava os galhos sobre o telhado do estabelecimento. Mas, confesso, tenho cá minhas desconfianças de que o velho inventava. Uma única árvore? Estranho, muitíssimo esquisito. Bem, certo mesmo é que toda noite vai gente lá no morro que ficou conhecido como Monte das Oliveiras, elevação de nome igual ao do lugar de meditação em Jerusalém. Verdade, por incrível que pareça, a atividade faz alguma conexão entre o bairro Amendoeira e a topologia evangélica em alusão a Jesus Cristo. Exato: Monte das Oliveiras, referência bíblica, nada de pés de amêndoas nem de olivas. Todavia, visitantes atribuem sentido e ligação de fé ao topo, porque, além do nome de árvore, o lugar foi consagrado pela população como roteiro de peregrinação e isolamento com fins de meditação.

Contudo, é bom ressaltar, em Amendoeira as crenças religiosas não seguem um mesmo fundamento lógico ou histórico, pois encontram-se no bairro outras tradições de fé. Dia desses, saiu da Rua Felipe Mascarenhas o grupo de Folia de Reis do Mestre Fumaça. Sim, tudo muito lindo. Um dos organizadores do evento afirmou que o grupo tem sua sede lá no Mutuá, coisa antiga mesmo, digna de preservação. Entretanto, no intuito de difundir e reforçar esse nosso patrimônio imaterial, o grupo de foliões saiu em marcha perto da antiga fábrica da Renaste, como se fosse em romaria — e encheu de colorido as imediações do Amendoeira. Quanto aos esportes, o velho Lourenço relata haver, na associação CECOMA (Centro Comunitário dos Moradores da Amendoeira), constantemente jogo de futebol e inúmeras outras atividades recreativas. Campeonatos esportivos, churrascos, confraternizações, ah! isso tem a qualquer fim de semana no referido espaço. E se bobear todo feriado também. Além do mais, atrações culturais não faltam lá no CRAS (Centro de Referência da Assistência Social). Dizem os moradores que o ator Leandro Firmino, que estrelou o filme Cidade de Deus, e o ativista gonçalense Rafael Massoto exerceram importantes trabalhos culturais nas redondezas. Inegável o fato de esses eventos comunitários reforçarem a participação dos munícipes nas atividades na região.

Bem, de modo geral, pode-se dizer que o bairro Amendoeira tem um jeito próprio de organização. O pessoal é participativo, indiscutivelmente, gente que faz jus ao termo comunidade. Exemplo disso é que, mesmo com o tráfico de drogas circundando o morro famoso (o Monte das Oliveiras Gonçalense), dezenas de religiosos seguem os índices das possíveis bênçãos que Deus tem para distribuir. As vigílias alavancam a economia do lugar. Sucos, sanduíches, refrigerantes, frutas, o comércio agradece à movimentação de fiéis. Sim, subir o monte com disposição: vigiar, orar e dar vazão à religiosidade frutifica também as finanças locais.

E, assim, nessa busca espiritual e também cultural, cada um leva a sério o seu propósito de peregrinação no Amendoeira. Seja subindo o monte famoso, seja exercendo as variadas práticas religiosas em interação com o bairro de São Gonçalo, a comunidade se integra e se fortalece. Pois, se a fé de hoje não move mais montanhas, ao menos renova a disposição do peregrino moderno. Qualquer pessoa do bem que se preze terá decerto uma semana inteira de trabalho, suor e correria pela frente, inevitavelmente.


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