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Bolsonaro é uma ameaça aos índios, por Mário Lima Jr.



Diante de declarações do presidente eleito que ameaçam a sobrevivência dos índios, o Conselho Indígena de Roraima (CIR) esclareceu, por meio de nota oficial, que o índio brasileiro já está integrado à sociedade, ainda que vivendo dentro de área demarcada. Segundo o documento publicado no dia 17, o índio será sempre índio, em qualquer contexto social, cultural e político do país. Não há forma de integração melhor, visto que a proteção constitucional permite o desenvolvimento indígena respeitando suas tradições, ao invés de trazer sofrimento, como alega Bolsonaro.

O CIR é uma organização de defesa dos direitos e interesses dos povos indígenas criada na década de 70 e de relevância internacional. Ele representa 237 comunidades e aproximadamente 50 mil índios dos povos Wapichana, Macuxi, Patamona, Taurepang, Inagricó, Sapará, Yanomami, Wai-Wai e Ye`kuana. Quando Jair Bolsonaro diz que conversou com alguns índios e que eles desejam jogar futebol, ter carro e viajar de avião, talvez ele não esteja mentindo. Mas os bate-papos de Bolsonaro estão muito distantes de um estudo antropológico a respeito do melhor tratamento para as terras indígenas e como estudioso ele não representa índio algum.

A intenção inconstitucional de Bolsonaro de rever a terra indígena Raposa Serra do Sol, que motivou o pronunciamento do Conselho Indígena de Roraima (CIR), tem o objetivo de facilitar práticas que exterminam os índios ao longo dos séculos: a exploração mineral da terra, o desmatamento e a poluição das águas.

De acordo com o CIR, os povos indígenas de Roraima são pioneiros na formação específica. Há professores, agentes indígenas de saúde, operadores indígenas em direito, agentes territoriais e ambientais e outros profissionais, a maior parte concentrados na Raposa Serra do Sol. A terra indígena conta inclusive com um centro de formação agropecuária, de manejo ambiental sustentável.

Não parece que os índios precisam da ajuda de Bolsonaro para extrair o sustento da terra. Eles precisam que seus direitos constitucionais sejam respeitados. Ano passado foram encontradas ossadas na terra indígena Vale do Javari, localizada no Amazonas. Indícios de um genocídio que poucos brasileiros tomaram conhecimento. A água que o povo yanomami bebe está contaminada por mercúrio. Noventa por cento das áreas indígenas eram atendidas por cubanos do programa Mais Médicos, de acordo com monitoramento da Organização Mundial de Saúde. Bolsonaro não aborda essas questões porque elas não interessam a ruralistas, madeireiros e mineradores que lhe dão apoio político.

Não se trata apenas de omissão e de declarações equivocadas. O esforço político de redução da proteção indígena se consolidou. A Fundação Nacional do Índio está morta, na opinião daqueles que ela tentou proteger e que insistem em chamá-la de mãe.

Milhões de pessoas compreendem o país em que vivem através das apresentações ao vivo de Jair Bolsonaro nas redes sociais. O povo brasileiro inteiro está ameaçado. Corremos o risco de preferir isso que está aí, jogado no Facebook e no Twitter, ao invés de ensaios e pesquisas sociológicos que revelam o Brasil de ontem e apontam caminhos dignos para o futuro.


Mário Lima Jr. é escritor.

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