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Ato Institucional Nº 17, por Mário Lima Jr.



O Presidente da República Federativa do Brasil, ouvido o povo brasileiro pelas redes sociais, e considerando que é preciso acabar com essa bagunça que está aí, deixada pelo Partido dos Trabalhadores, resolve editar o seguinte:

1. O Brasil será transformado em um grande país porque esse é o destino nacional. Caberá principalmente ao Presidente da República definir as ferramentas adequadas para a transformação e os parâmetros de definição de um grande país, da forma que seu intelecto julgar conveniente.

2. Em nome do progresso e no interesse de preservar o patrimônio dos latifundiários brasileiros, cujos antepassados se esforçaram para explorar a terra e promover a ordem, estão proibidas novas demarcações de terras indígenas.

3. O Presidente da República está convencido de que os quilombolas estão obesos, não servem nem para procriar e precisam mudar seu estilo de vida, portanto, estão suspensas todas as homologações de comunidades quilombolas em andamento. Os quilombos já existentes devem comprovar periodicamente que seus habitantes estão dentro do peso ideal.

4. Cada centímetro de terra do território brasileiro está sujeito à exploração de madeireiros, agricultores, caçadores e mineradores, ainda que impliquem em desmatamento e poluição, desde que violações à Constituição permaneçam longe do conhecimento público.

5. A fim de superar a seca no Nordeste desenvolvendo a agricultura da região com tecnologias inspiradas na experiência israelense, o Presidente da República determina que a embaixada brasileira seja transferida para Jerusalém. A aproximação diplomática com Israel também facilitará o aprendizado de técnicas eficientes de opressão.

6. Negros e favelados portando fuzis, furadeiras e guarda-chuvas serão abatidos. Diante da escalada da violência, é melhor atirar e perguntar depois. Se alguém tiver que morrer, por engano ou não, que morra do lado certo, o pobre. Qualquer reivindicação contrária será julgada como vitimismo ou palhaçada.

7. Fica estabelecido que protestar contra a pobreza e pedir vantagens, como cotas raciais, não contribui para o desenvolvimento. Na verdade, os programas de assistência social prejudicam o crescimento do país. O Brasil pode ser desigual, contudo, é preciso trabalhar. A questão da geração de empregos será revista posteriormente.

8. Está assegurado o direito de circulação de homossexuais em território nacional, desde que não tentem criar nas escolas programas contra a homofobia, popularmente conhecidos como “kit gay”. Aprender que a diversidade sexual deve ser respeitada pode despertar o interesse infantil sobre o homossexualismo e pessoas de bem não desejam tal influência.

9. As redes sociais continuam sendo o canal oficial de comunicação entre o Presidente da República e a população, pois são veículos que não favorecem o debate sadio e onde notícias falsas se espalham com mais facilidade. Deve continuar a construção de narrativas que escondam as verdadeiras vítimas da violência e da pobreza, o negro e o índio.

10. Jornais e revistas estão proibidos de publicar notícias que manchem a imagem do Presidente da República e dos seus filhos. Caso descumpram esse artigo, tais notícias serão consideradas falsas.

11. O presente Ato Institucional entra em vigor nesta data, revogadas as disposições em contrário.

JB.


Mário Lima Jr. é escritor.

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