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Guarani: um Mundel de gente boa em São Gonçalo, por Erick Bernardes



Incrível como alguns lugares carecem de informação histórica não é mesmo? Não faltam odisseias a quem se aventure a adquirir dados sobre certas regiões de São Gonçalo.

Quando se fala desses lugares pouco inscritos nos meios de comunicação, o bairro Guarani se revela espaço exemplar. Oficialmente o lugar pertence ao terceiro distrito gonçalense e ganha de lavada no quesito desconhecimento histórico. De modo geral, o poder público deixa (e sempre deixou) a desejar quanto à educação gonçalense, e com os moradores do Guarani não foi diferente. Descaso total com pessoas tão interessadas em saber sobre sua própria cultura.

Negligência governamental. Nada parece haver de explicação ou informação sobre o referido nome de lá, já que eram os Tamoios que predominavam em São Gonçalo antigamente. Será que no passado o espaço serviu de preservação de alguma tribo ou outra denominação indígena? Teria migrado para aquelas terras dos Tamoios alguma família da etnia Guarani? Não sei, juro que não descobri. Impossível saber acerca da historiografia de lá, porque ninguém consegue explicar.

Lembro de quando conheci o bairro Guarani, no tempo em que trabalhei de representante comercial. Entrei numa escola chamada Vila Guarani. Logicamente, por causa do nome da escola, entendi que era lá mesmo o bairro segundo qual procurava. Na cozinha pedi por caridade um pouco de água gelada: deram-me suco, goiabada com pão e atenção. Pessoal bacana! Funcionários da escola muitíssimos simpáticos; gente boa demais. No meio do bate papo, me relataram que quase ninguém conhecia a região pelo nome indígena. Pronto. Matei a charada. Não referiam-se ao bairro pelo real nome Guarani. Desvendei o mistério: Mundel era como o chamavam nas redondezas. Exato. Iria rodar o mundo e não encontraria a região que pesquisava. “Procure sempre por Mundel, meu filho”, disse uma senhora sabida do bairro, “pois é assim que falam por aqui”, finalizou a conversa. E, realmente, dessa explicação jamais esqueci. Mas na memória ficou a imagem dos funcionários da escola. Em resumo: seja Mundel ou Guarani, fato inegável toda aquela simpatia gratuita ter marcado minha história. Lembrança boa isso sim.

Atualmente, perguntei à minha amiga Carla, ex-moradora da região, quais as mais recentes notícias, peculiaridades e modificações do bairro Guarani — já que do passado pouco se sabe. Segundo ela, ainda em 2014, durante o governo da Dilma Roussef, a presidenta inaugurou um imenso complexo de casas populares do projeto Minha Casa, Minha Vida (MCMV). Durante um dia de visita presidencial, o bairro Guarani ganhou as manchetes dos jornais e até passou em programa televisivo. Centenas de casas populares receberam gente de bairros gonçalenses diversificados. Conclusão? Aumento de movimento econômico e, logicamente, os problemas sociais decorrentes da falta de assistência permanente aos moradores. O que acontece com qualquer região que obtenha migração civil sem planejamento público? Comércio em ascensão é bacana, isso é verdade, e desenvolveu-se bem por lá. Entretanto, a infraestrutura no quesito transporte e segurança pública está muito aquém das promessas governamentais. Uma pena, falta de pesquisa traz prejuízos quando poderia servir de modelo.

Enfim, estava claro meu recente desconhecimento do lugar. Porém, embora minha gentil amiga Carla me ponha a par das novas informações sobre o bairro Guarani, prefiro resguardar as lembranças de quinze anos atrás. Pois, com tanta mudança social e estrutura mal planejada no bairro, é no passado que as minhas lembranças vão buscar as suas cores. Fiquemos com o descaso do presente, mas lembremos das pessoas bacanas que lá conheci. Obrigado, Escola Estadual Vila Guarani, muito obrigado pela acolhida!


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