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'A Praça', de André Mansur, traz as delícias e as tragédias humanas no coração do Rio


O primeiro romance de André Luis Mansur, A praça, traz a público uma narrativa leve, construída com aqueles elementos tipicamente urbanos da cidade do Rio de Janeiro: os bares e as noites movimentadas, os monumentos históricos, a malandragem, a praia, dentre outros. Acrescido de ilustrações de Fernando Krieger, com desenhos em lapiseiras 0.7 e 0.5 mm, possui prefácio da professora e escritora Tânia Beniz. O livro foi editado pelo próprio autor e dispõe de linguagem fluida, pois se apresenta estruturalmente voltado para a dicção popular, em busca dos traços de oralidade.


Girando em torno de não mais que década e meia atrás, seu texto é capaz de provocar um tanto de reconhecimento ao leitor interessado nas mudanças ocorridas nos espaços públicos cariocas. O romance de André Mansur viabiliza toda uma ambientação intimista e provocadora, cujo narrador em terceira pessoa joga com as imagens relacionadas às topografias e monumentos históricos do Rio de Janeiro, em especial, a imagem da Praça Tiradentes e seu entorno. Estratégia marcante na estética ficcional do escritor é essa caracterização suburbana dos personagens, em contraponto ao contexto urbano onde as ações se desenvolvem. Mesmo aquele leitor não muito familiarizado com a antiga capital do Império reconhecerá os nomes sempre presentes na historiografia e na arquitetura brasileira e carioca.

André Mansur é jornalista e pesquisador ativo da memória nacional e ganhou destaque por seus trabalhos nos jornais como O Globo, Tribuna da Imprensa e Jornal do Brasil. Durante a carreira, assinou textos críticos sobre literatura para o caderno “Prosa e Verso”, do jornal O Globo. Quanto aos livros, são de sua autoria Marechal Hermes: a história de um bairro (2015), juntamente com Ronaldo Morais também compôs os volumes de artigos e fotos sobre a História do Rio de Janeiro nomeados, ambos já na segunda edição: Fragmentos do Rio Antigo (2014) e A invasão francesa do Brasil (2015), dentre suas tantas produções. Daí a facilidade com que o artista transita, ora por problemas familiares e sociais da vida brasileira, como prostituição, alcoolismo, desemprego, violência contra mulheres, ora por aspectos típicos da topografia carioca, mostrando, assim, a sua preocupação com os problemas da sociedade.

Exemplo dessa veia crítica acerca da vida social brasileira — e de estilo narrativo atento ao mundo que o cerca — pode ser acompanhado nas passagens dramáticas, cuja personagem Pompom aparece em suas crises existenciais em decorrência da perda da beleza e da juventude. Prostituta experiente para os lados da Praça Tiradentes, a vida de Pompom desmistifica o rótulo de “vida fácil” que imprimem às profissionais do sexo da cidade do Rio de Janeiro. Ela sente o tônus do seu corpo tragicamente decair, e passa a ser alvo de deboches e chacotas das novas “meninas” que chegam para disputar o espaço da prostituição. A tristeza a consome, a alegria definha e a miséria resolve evidenciar seu lado mais cruel. Por outro ângulo, embora os excessos da vida noturna — repletos de bebidas, madrugadas sem dormir e a decadência vital da personagem Pompom — salpiquem nesse caldeirão romanesco um certo “quê” de crítica social, importa ressaltar; a história em questão de modo algum visa moralismos fúteis que venham a empobrecer a sua arte literária. Em vez disso, a obra evidencia certo halo de expectativa por dias melhores, dispostos nos diálogos de outros personagens emblemáticos, a saber: a prostituta Leila, mãe solteira e forte, que se apaixona pelo jovem intelectual Luiz Antônio. Há também a personagem Vera Lúcia, editora de livros e encantada pela poesia de Ernest Hemingway. E, ainda, o próprio Luiz Antônio, rapaz amante das artes mas, acima de tudo, da poesia. Esses personagens compõem o matiz de esperança que o romance A praça arregimenta, a exemplo dos ecos nos versos do poeta norte-americano Hemingway: “é uma estupidez não ter esperança” (MANSUR, 2018, p. 147), nota-se a alegria e a amizade prevalecerem na história de Mansur.

Com isso, em meio a toda vida desregrada e pululante da Praça Tiradentes e seus arredores “o movimento nas ruas, bares, teatros, hotéis históricos” (MANSUR, 2018, p. 17) se insinua. É quando o cotidiano urbano e sedutor serve de material artístico e convida o leitor a transitar prazerosamente por esse “roteiro” escrito por André Luis Mansur, em A praça (2018). Enfim, conforme as palavras da prefaciadora Tânia Beniz, uma narrativa cuja “delícia e o trágico caminham juntos”, contraditoriamente, como de fato se caracteriza a própria condição humana.

MANSUR, André Luis. A praça. Rio de Janeiro: edição do autor, 2018.


Erick Bernardes é escritor e Mestre em Estudos Literarios.

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