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Largo da Ideia: bate-papo e história em São Gonçalo, por Erick Bernardes


Sabe daquelas coincidências que parecem impossíveis? Pois é, quis o destino surpreender: juntou o barbeiro Dirceu com companheira de semelhante nome; uniu afinidades; proporcionou muita história interessante. Curiosíssimo acaso, Dirce e Dirceu, igual a nome de dupla sertaneja.


Antigo Hernabário do Largo da Ideia com esquina da Rua da Faca/Foto: Erick Bernardes

A dona da venda se casou com o proprietário da barbearia mais conhecida do Largo da Ideia. Formam hoje um casal sabido e juntos fazem a atual cartilha sobre o município de São Gonçalo parecer bate-papo despretensioso. Porém, é mais que isso, a simpatia e a modéstia escondem um importantíssimo acervo cultural guardadinho na memória dos dois. Verdade, conhecem de tudo sobre o bairro chamado Largo da Ideia. Ao se referirem à tradição rural das redondezas, o velho Dirceu enumerava as grandes fazendas e os sítios centenários. Eu mesmo não conhecia coisa alguma sobre esses dados relativos ao meu próprio município. Imagine só, há fazendas da época dos velhos e imponentes coronéis. Sem contar as várias chácaras que zelam pelos aspectos coloniais como um dos seus atrativos principais.

Soube que a Fazenda do Cerrado reserva um espaço quase turístico e segue aquele formato tradicional que, não raro, serve de cenário a filmagens e sessões de fotografias para debutantes e recém-casados. “Tudo bastante caprichado”, revelou-me o barbeiro, “tem até carro de boi e senzala conservada lá”. Dona Dirce jurou que o nome da fazenda rende homenagem ao coronel, personagem famoso no meio rural, e que serviu de registro até de rua e colégio público no município. Coronel Cerrado: colégio, rua, birosca, condomínio... tudo tem seu nome. Deus do céu, para que tanta homenagem a um antigo escravocrata? Outra história popular digna de desconfiança refere-se ao nome Largo da Ideia, cujo significado estaria nos altos bate-papos ocorridos próximo à praça, de onde surgiam ideias e intuições de negócios entre os homens de posses.

Outro recanto de beleza e tradição rural é o Sítio Paraíso, verdade, estivemos lá. Descemos na Rua da Faca, alguns minutos antes do Rio Frio, antigo afluente das bacias de São Gonçalo. O Sítio Paraíso é daquelas propriedades cuidadas com esmero, possui uma réplica da locomotiva que, nos tempos remotos, transportava matéria prima para a fábrica de cimento Portland, da fábrica Mauá, com sede em Guaxindiba. Coisa linda, a produção escoava de trem onde hoje é lugar de visitação. O cuidado com o espaço do sítio conserva a memória municipal.Seria chover no molhado afirmar que o nome das terras faz jus ao espaço paradisíaco: refúgio ideal para quem deseja sair do corre-corre urbano.


Réplica Locomotiva Mauá/Portland/Foto: Erick Bernardes

Pois bem, quer saber quem nos contou? Difícil acreditar em história alheia? Decerto que sim, mas nós vimos e experimentamos — e acabamos entretidos com os araçás e jamelões maduros disponíveis à degustação. Incrível, tudo aqui pertinho, no Largo da Ideia, extremo território gonçalense, última parada antes de Itaboraí.


Erick Bernardes é escritor e Mestre em Estudos Literários.

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