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Engenho Pequeno: o pulmão de São Gonçalo, por Erick Bernardes


Eram quase cinco quilos de frutas retiradas direto do pé. Mangas, araçás, goiabas, jamelões, bacuícas, dentre outros sabores que marcaram a minha meninice lá no bairro Engenho Pequeno.

Subia ao menos duas vezes por semana o parque ecológico, onde hoje é a APA (Área de Proteção Ambiental), e trazia comigo deliciosos frutos e a respiração renovada por causa do ar puro. Tempo bom, preocupação quase nenhuma, apenas o cuidado com as cobras no caminho e incômodo proveniente dos excessos de peso das frutas a magoarem os meus braços franzinos.

Recordo bem de quando voltava pela estrada que dava acesso à APA e cruzava com o senhor Mangueira no meio da rua. Impossível não parar, sentar ao lado daquele sujeito centenário e puxar conversa despretensiosa. Uma enciclopédia viva aquele homem, meu Deus! Sabia muito sobre o Engenho Pequeno aquele velho amigo Mangueira. Entre uma e outra baforada de cachimbo feito de árvore de guiné, o carismático idoso revelava histórias que a mãe narrava a ele e aos seus sete irmãos já falecidos. Pois é, jurava ser filho de escravos, por isso guardava com zelo as contações de história dos antigos moradores do bairro. Um acervo vivo ali na minha frente.


Eu mesmo nem tinha noção da riqueza de detalhes que a memória do coroa me disponibilizava. E das histórias que absorvi ficaram imagens de homens e mulheres na luta pela sobrevivência, não raramente de pés descalços e mãos calejadas, por causa da construção da capela de Nossa Senhora da Conceição. Experiência dura eles viveram. Negros fundamentando a fé católica dos outros, e ainda plantando e colhendo mandioca e cana para moer, tudo ali mesmo, onde hoje há até supermercado e lan-house moderninha. Enquanto cachimbava o fumo grosso, afirmava que muitos ex-escravos se instalaram nessa região gonçalense por causa do pequeno engenho que o dono de uma importante fazenda permitiu que construíssem no ambiente afastado do casario. Segredou Mangueira: “Verdade, meu filho. Quando passavam fome, os escravos não pensavam duas vezes antes de meterem a mão em um pouco de farinha fabricado por eles mesmos. Daí o coronel fazendeiro permitir que os nossos pais e avós montassem engenho menor, moenda pequena, só pra alimentar toda gente escrava que trabalhava na roça”.

Bem, mas essa é uma das muitas versões sobre o saudoso centenário. Pois, de acordo com o ativista político Carlos Cabeleireiro, embora a história dos escravos pareça correta, o resto da narrativa o senhor Mangueira inventava para se divertir. Segundo esse mesmo líder comunitário e dono do salão de cortar cabelos, o velho falastrão fora criado na malandragem da Lapa, e, como todo bom malandro cansado, escolheu lugar afastado para alongar o espinhaço e prolongar seus últimos anos de existência.

Enfim, sou da opinião de que história boa é aquela cujo coração aceita sem relutar. E, embora lá no fundo, o mestre Mangueira parecesse emitir no olhar maroto uma centelha de deboche, é a sua narrativa malandra, cachimbando e falando sobre o Engenho Pequeno, que guardo com respeito e saudades. Bom descanso, velho amigo!


Erick Bernardes é escritor e Mestre em Estudos Literários

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