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Na encruzilhada da língua: a 'Macumba' de Rodrigo e outros santos


O leitor já se deparou com alguma história capaz de incomodar os juízos? Acaso obteve romance que deixasse sua respiração afoita? Bem, falo aqui desse tipo de leitura provocativa; refiro ao livro Macumba (2016), de Rodrigo Santos, publicado pela editora Casa da Palavra.

Vencedor do Prêmio de Literatura FluppPensa, em 2012, a obra de Santos é daquelas narrativas capazes de tirar o leitor dos seus cômodos (in-comodar) e proporcionar uma viagem pelo espaço-tempo da nossa história, sem usar de panos mornos com relação à sociedade hipócrita que se formou desde a colonização do Brasil. Com excelente prefácio de Écio Salles, curador do selo Flupp, a ficção de Santos traz à tona um enredo sobre o passado colonial desastroso e dramático, misturado ao presente trágico da sociedade atual, alternando o ontem e o hoje da história de uma das partes periféricas do país. O fato do texto de Macumba estender-se da África à América, devido ao vai e vem narrativo entre a costa africana e o território brasileiro, permite ao leitor atravessar fronteiras, não só geográficas mas, acima de tudo, ultrapassar os limites dos conhecimentos considerados formais, tais como: História, Antropologia, Linguagens, Sociologia, dentre outros; mostrando o quanto as culturas se irmanam e se reconhecem.

Baseado em um esquema típico de romance investigativo, Macumba traz ao público alguns elementos demonstrativos, segundo os estudiosos Alexandre Ferreira e Bárbara Brito, de que “a literatura policial vem sofrendo modificações constantes” (2015, p. 9), mas é possível identificar o gênero quando há: instituições civis e militares, investigações de agentes, além de perseguições e algumas trocas de tiros. Por outro lado, o texto contém uma estrutura similar àquelas novelas de época como as que salvavam a televisão brasileira de antigamente. Há duas linhas narrativas em terceira pessoa que convergem para o eixo São Gonçalo-Niterói, cidades onde as contradições são desde muito conhecidas. Contudo, mais que todos esses elementos apontados, nota-se o estilo do artista ir um pouco além desse modelo investigativo, porque o seu discurso não se restringe ao tema de polícia e bandido. Em vez disso, a trama dispõe de assuntos muito caros à sociedade: preconceitos religiosos, racismos, desigualdades sociais e negligência do Estado para com os desfavorecidos. Em outras palavras, a arte literária de Rodrigo Santos chega para retirar o lençol da indiferença que encobre as irresponsabilidades dos que mandam no Brasil — as castas; as famílias; os clãs de endinheirados que concentram entre si as riquezas do país — embora estes não queiram admitir o dever para com a sociedade.

Nascido em São Gonçalo, município pertencente ao Estado do Rio de Janeiro, o autor vem se destacando no meio cultural brasileiro. Rodrigo Santos já publicou Máscaras sobre Rostos Descarnados, Brechó de Almas e Mágoa, e promove trabalhos com as comunidades locais como ativista cultural, além de ter sido um dos idealizadores do sarau denominado Noite na Taverna: lugar de poesia, música e bate-papo, onde gonçalenses e munícipes vizinhos se expressavam. Autor de obras literárias por vezes polêmicas, o artista chegou com seu romance e deu o seu recado: fez da sua literatura instrumento de denúncia das desigualdades sociais como forma de inscrever-se no mundo.

Com relação aos personagens da obra, encontramos no texto de Santos certos tipos e carácteres que refletem e questionam suas próprias existências, principalmente quando esses mesmos personagens se deparam com as contradições da vida, por exemplo, nos momentos em que as entidades sobrenaturais influenciam o cotidiano das pessoas, ou quando os preceitos religiosos do protagonista entram em conflito com a vida prática. Principalmente no momento em que Ramiro, homem protestante, se envolve com a personagem Vanessa. Esta mulher é atraente, frequentadora de centros de umbanda, detentora de cultura diversa à dele, e promove uma reviravolta na vida do policial que deixará o leitor surpreso. Amor, paixão, sensualidade? Sim, certamente que há — na perfeita medida do erotismo e da provocação — e isso confere ao enredo uma pitada maior no tempero da obra.

Enfim, a escrita de Rodrigo Santos desconstrói aqueles polos opostos do tipo bem e mal, Deus e Diabo, certo e errado, evidenciando, por meio do texto literário, as contradições da condição humana. Com o toque de refinamento estético e crítico que lhe é de costume, o autor se comunica usando a língua do povo, ou seja, um texto agradável e de linguagem descomplicada para que o leitor se reconheça também como parte desse legado cultural. E, assim, na história de Macumba elevam-se os deuses da arte: em vez de evoé, desta vez o laroyê!


REFERÊNCIAS

SANTOS, Rodrigo. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2016.

FERREIRA, Alexandre A., BRITO, Barbara L. C. (Re) configurações das relações acerca dos gêneros policial e fantástico em W. H. Hodgson. In: OLIVEIRA. Paulo César (Org.) Estudos de literatura, hoje: I Seminário Interno do Grupo “No aqui e agora”. São Gonçalo, RJ. FFP- UERJ, 2015.


Erick Bernardes é escritor e Mestre em Estudos Literários.

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