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O cúmulo poético ou monstrinho taverneiro, do livro de Romulo Narducci


É mesmo curioso crescermos ouvindo canções de ninar que trazem em seus versos uma boa dose de maldade ou masoquismo, antes mesmo de atingirmos a idade adulta. Quem nunca ouviu de um tio, padrinho ou amigo da família a cantiga “Atirei o pau no gato”? Qual cidadão, por mais "certinho" que seja, não se obrigou a escutar, quando criança, o antiecologismo incendiário do refrão de “Cai cai balão”? Sim, somos criados assim, alimentados no medo com o traumatizante “Boi da Cara Preta”, desde cedo. Indiscutível constatação.

Bem, fato é que ao reunir poemas em seu mais recente livro, Cantigas de ninar monstros, Romulo Narducci permite ao leitor retomar caminhos e deparar com seus fantasmas interiores; suas frustrações; seus receios. O livro deste escritor niteroiense radicado em São Gonçalo chega com o selo da editora Conexão 7, e traz consigo o elegante prefácio de Carolina Hubert, idealizadora e editora da revista Vício Velho. Romulo, que é também advogado, recentemente passou a integrar a comissão da OAB gonçalense, reafirmando também a competência no exercício do Direito Constitucional. Possui uma relevante produção literária. Já publicou os volumes de poesia Oração independente (ou Cancioneiro erótico), em 2008, e Tudo que morre é consumado (2010), além de uma peça teatral chamada Dissolvendo sombras (2003) e o livro de contos Angustiolândia (ou bares, ruas e bordéis), em 2014, este último majoritariamente contextualizado em São Gonçalo.


Outra informação relevante é o fato de o autor ter sido (junto a Rodrigo Santos e a Pakkatto) um dos idealizadores de Uma Noite na Taverna, evento de arte localizado na região fluminense, onde a população declamava e ouvia poesia da melhor qualidade. Sem contar as atuações de guitarrista junto à sua banda de rock.

No livro Cantigas de ninar monstros, notamos a prosódia melancólica e o ativismo cultural refletir em um tipo de eu-lírico urbano “moldado a ferro na bigorna da vida" (p. 118) “Flanando pela cidade devastada” (p. 113) e passível de ser notado em seus versos como alguma forma de denúncia ao descaso do governo com relação à cidade de um lugar qualquer do Brasil — e que para nós é a São Gonçalo de hoje.

Cumpre ressaltar ao leitor desavisado que vincular poesia ao sentimento terno — ou amoroso ou cândido ou fraterno ou erótico ou religioso — não é incomum. Porém, o livro de poemas que ora vem a público traz à tona angústias e tormentos revelados sob as percepções da vida adulta, extraídos do cotidiano de pessoas reais e crescidas, que passam ao largo da inocência infantil. É como se esse “eu” presente na obra de Narducci poetizasse a melancolia que (literalmente) vem berço, e se esvaísse a cada engatinhada no tempo dessa voz preocupada com o espaço circundante, como em um dos seus poemas mais emblemáticos, “As garças do Rio Imboaçu” (p. 99), e que reflete a pobreza da cidade onde mora.

Com isso a obra Cantigas de ninar monstros revela traços autoconfessionais sobre o município e não nega a influência de um Baudelaire ou Maiakowski, por exemplo, quando aponta a insatisfação que espreita o artista. Trata-se de uma confissão de uma página não virada do eu-lírico angustiado, mas que não é a última página da vida, pois, haverão outras tantas, tal qual se enuncia: na cidade “o monstro nunca dorme” (p.131) encontra-se à espreita de qualquer pessoa, flanando pela cidade.

Referências:

NARDUCCI, Romulo. Cantigas de ninar monstros. Rio de Janeiro: Conexão 7, 2018.


Erick Bernardes é escritor e mestre em Estudos Literários.

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