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Tribobó ou o povo das águas, por Erick Bernardes


Se José de Alencar houvesse conhecido São Gonçalo, certamente teria reservado ao bairro Tribobó boas páginas de romance ou novela. Lagos e riachos, vegetação atlântica e uma fauna riquíssima em espécies de pássaros, mamíferos e peixes. Tudo isso havia ali.


Imagine a cena criada pelo escritor romântico autor de O guarani, um desbravador português e sua comitiva chegando ao largo onde hoje encontra-se o atual IML (Instituto Médico Legal). Coincidência fantasiosa? Claro que sim, mas mesmo que não fosse, certo é que no terreno do IML de São Gonçalo, onde os defuntos aguardam seus respectivos laudos de causa mortis, os antigos habitantes índios esperavam seus tristes fins. Porém, é claro que essa história receberia as tintas certas com as cores da hipocrisia nacional, talvez em verde e amarelo gritante e atualizado, sem ordem ou progresso algum pontuado no azul global do meio. Até sumiu o lugar onde a Santa Igreja forçava aos nativos a catequização e, séculos depois, erigiram ali uma linda igreja Mórmon. Verdade, é possível ver agora. Uma construção religiosa das mais belas, onde a ponta de lança no teto aponta a morada do redentor.

Bem, voltemos ao que interessa. Falo aqui da região gonçalense cujo significado decorre da junção de “tribo”, ao termo tupi designativo de água “bó” ou “bóa”, dando origem a Tribobó: povo (ou tribo) das águas. O cidadão mais descrente gargalharia duvidando e faria piadas. Um prato cheio para deboches sobre o bairro. Claro, né! Cadê os córregos e pequenas lagoas de Tribobó? Onde foram parar os índios? Explico: parte dessas águas foram redirecionadas às indústrias que ali se instalaram, fábrica de papel, associação avícola, confecções de fraldas descartáveis e materiais plásticos, dentre outras. Indispensável a qualquer parque industrial consumir muita água. Quando o lugar proporciona facilidades na oferta desse bem essencial, não será a ecologia o assunto principal, mas os desejosos cifrões monetários marcando o compasso dos sons das máquinas industriais. Todavia, empregos são gerados, impostos aumentados e a prefeitura se agrada.

Há também uma lenda de que havia na região uma propriedade agrícola pertencente a três irmãos cujos sobrenomes coincidiam com o termo Bobo. Seriam esses mesmos “três bobocas” os donos do sítio, Marlus, Luis e Iara, todos com sobrenome Bobo Andrade de Oliveira, e que teriam dado o registro engraçado ao bairro. Mas, quer queira ou não, em São Gonçalo tudo se mistura e compõe o imaginário local. Daí por diante, qualquer relato se revelaria mera especulação, nessa passagem quase obrigatória de Tribobó à Região dos Lagos. Vindo da Rodovia Amaral Peixoto, o carioca (de férias ou feriado) segue firme e torcendo: quem sabe dessa vez ele passa longe do engarrafamento que nada tem de romântico? Pois é, temos aí um drama, quem sabe!


Erick Bernardes é escritor e mestre em Estudos Literários.

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