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As noivas são do Paraíso, por Erick Bernardes


Algum desavisado pensaria que falo de certa receita ou de matéria gastronômica, por causa de uma simples ida à peixaria em dia de domingo. No entanto, posso lhe garantir que é nada disso, refiro a certa pechincha junto às barracas de peixes no bairro do Paraíso.

Está para nascer lugar mais fácil de confundir do que esse, hein! Bairro curioso no município gonçalense, onde costumo comprar pescado fresco. É frequente confundirem o Paraíso com o Gradim, Porto Novo, e até chamarem de Patronato a vizinhança. Fenômeno incomum, coisa mais rara é acertarem de primeira a verdadeira localização. Contudo, para que serve o cronista se não for para informar? Uma pesquisa rápida no Google afirmará que o nome tão bonito serviu de atrativo durante a especulação imobiliária. Claro, lotearam uma propriedade gigante e batizaram com o destino último do bom cristão: Paraíso, última estação do além, na melhor das hipóteses. Cruzes! Assunto mais mórbido. Voltemos ao que interessa, sabe-se que o ponto bom de referência do bairro é o antigo supermercado Publix— e em tempo recente alterou o nome para um mais francês e comercial. Não é propaganda de mercado, garanto a você leitor, só mesmo intenciono mostrar onde se localiza de fato o Paraíso. E, assim, de quebra, dou dica bacana para a peixada do fim de semana, pois ali atrás do mercado se encontram peixes fresquíssimos a preços justos. Sim, deliciosos pescados: espadas, corvinas, pargos, trilhas, lulas, camarões cinza. Aliás, foram mesmo os cinzentos camarões gigantes o meu foco de atenção.


Ardea alba, ou garça branca, própria de regiões de foz de rios e mangues da Baía de Guanabara/Foto: Helcio Albano

Pois é, tudo seguia normalmente durante a escolha dos crustáceos, quando pressenti um vulto esbelto e alto a me servir de companhia. Senti a aproximação da ousada sombra clara. Revelou-se esticada, magra, elegante. Não leitor, não era uma mulher, juro que não. Acabei recebendo a companhia assídua de uma garça enorme, cujas penugens do dorso assemelhavam vestido longo e branco. Impressionante a docilidade da ave, calma e observadora, acostumada ao vai e vem dos peixeiros e pescadores. Fiquei lisonjeado. Os vendedores das bancas de mariscos riram enquanto manuseavam sacos de gelo picado, no entanto, logo anunciaram que tais animais são mesmo interesseiros. Se amigam com qualquer um que se aproxime das barracas. “Safadinhas essas garças, hein!”, comentei.

Ao meu lado, percebi não apenas uma aguardando, mas eram seis ou sete delas aglomerando. Esperavam. Buscavam sobras de pescado. Qualquer rabo de sardinha ou carcaça de siri já lhes serviria. Grandes e alvas como noivas constituíam suas plumagens. Excesso de penas nas cabeças, mais pareciam um véu sobre os pequeninos crânios estreitos. Por fim, comprei os camarões. Atirei na direção delas cinco cabeças de bagre que estavam sobre a tampa de um galão de plástico encardido. Juntou mais e mais garças para o banquete que eu havia lhes proporcionado. Um socó ladrão se meteu na briga, levou duas bicadas e fugiu. As interesseiras e malandras se desentenderam entre elas também, brigaram, nada de amizades, só petiscos lhes convinham.

Bem, ao fim e ao cabo, as brancas e pernaltas se saciaram bem. Aquela mais esguia que me encantava logo se esqueceu de mim por causa do papo cheio. Aproveitei o momento, acertei o preço com o peixeiro, saí de mansinho. Não fui notado. Resumo da ópera, além de pescado saudável, ganha-se fácil no Paraíso as “noivas” no bico.


Erick Bernardes é escritor e mestre em Estudos Literários.

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