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Torcida única nos estádios a quem interessa? Por Thunai Melo


O que nos atrai para irmos aos estádios de futebol está longe de ser o elenco do nosso time e a campanha que ele fez durante a temporada, e sim a atmosfera que presenciamos com músicas, gritos, hinos, marchinhas e outras alegorias que duelam nas arquibancadas em defesa dos seus espaços. A torcida única significa a falência de uma das principais características que ainda existem em nossos estádios, que é a irreverência, e que está desaparecendo com as arenas construídas e posteriormente utilizadas no período pós-Copa do Mundo de 2014.

A criminalização das torcidas e a postura inconsequente das federações e dos seus gestores fazem com que os mesmos tomem atitudes irrelevantes para solucionar os problemas com torcedores dentro e fora do estádio (lembrando que, em grande parte, as brigas entre as torcidas ocorrem nos arredores ou a quilômetros de distância dos estádios e acabam punindo injustamente o que seria um espetáculo em que o protagonista seria o povo). Não existe uma política séria e efetiva entre os setores públicos e privados para organizar os eventos relacionados ao futebol nas grandes cidades e muito menos no combate à violência entre as torcidas organizadas ou torcedores comuns. O que existe é uma política de “enxuga gelo” em que as autoridades colocaram como determinantes desde os anos de 1990 e que não deram absolutamente nenhum resultado e apenas amortizaram os conflitos que não deixaram de acontecer, fazendo com que as torcidas organizadas tenham uma relação promíscua com alguns dirigentes de clubes em troca de favores, como o apoio a candidaturas políticas internas, dentro ou fora do clube.

É fato que essa falta de vontade política dos governantes nas esferas municipais e estaduais favorecem nada mais nada menos àqueles que têm a intenção em modelar o torcedor à sua maneira, ou seja, modificar as características dos torcedores, dando lugar a uma torcida mórbida, sem graça, preocupada apenas com a maneira como as selfies irão aparecer nas redes sociais do que em torcer e se mostrar motivado em estar naquele espaço. Desta forma, copia-se um discurso elitista e ao mesmo tempo preconceituoso como: “As famílias têm que estar nos estádios”, “aumentando o ingresso, o nível de educação dos torcedores vai melhorar”, como se antes não houvesse nenhuma família ou cidadãos de bem nos estádios.

Todas as formas de resistência possíveis têm que existir, tanto dos torcedores organizados que tem um nível de consciência e se mobilizam quanto da população que é amante do esporte e frequentadora assídua dos estádios. Deve partir também de jornalistas comprometidos, que assumem as tarefas como investigar, criticar, debater, informar e politizar a população, além de atletas e ex-atletas que convivem com a dura realidade dos holofotes, dos contratos que muitas vezes tiram a liberdade de expressão. Enfim que todos estejam atentos e ao lado daqueles que lutam pelo espetáculo e não somente pelo lucro.


Thunai Melo é professor de História e Geografia da Rede Estadual de Ensino e membro da Confraria do Botão - SG.

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