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Kauan Peixoto, por Mário Lima Jr.



Mais uma criança morreu baleada no Rio de Janeiro. Kauan Peixoto tinha apenas 12 anos e morava na comunidade da Chatuba, em Mesquita, na Baixada Fluminense. Esse tipo de tragédia, causada pelo fracasso da gestão da segurança pública e pelo desprezo contra o pobre, impõe um desafio político e humano gigantesco ao povo do Rio. Além de inteligência no combate ao crime, a fim de garantir a sobrevivência das crianças do Estado, falta empatia e compreensão em relação aos parentes das vítimas.

Kauan saiu para comprar um lanche na noite do dia 16 de março e terminou morto em um hospital, atingido por três tiros. Testemunhas, que estavam em um bar próximo do local, dizem que o primeiro disparo atingiu o menino na barriga. Depois, Kauan teria sido vítima de uma monstruosidade. Um policial se aproximou, deu um tiro na perna dele, algemou, arrastou e jogou o garoto dentro da viatura policial, segurando Kauan pela bermuda, como se fosse um saco de batatas. Outros policiais cataram as cápsulas do chão. Há detalhes demais nessa versão, cruéis e suficientes para que seja considerada em uma investigação séria. A origem do terceiro tiro, no pescoço, é um mistério para a família.

A polícia militar afirma que Kauan foi a única vítima de um confronto com criminosos. Ele estaria atrás das forças de segurança, por isso não poderia ter sido atingido por nenhum policial. É a versão da instituição que frequentemente está entre os suspeitos quando negros, pobres e favelados são assassinados e em 2015 matou Eduardo de Jesus, com 10 anos de idade, enquanto brincava de carrinho na porta de casa, no Complexo do Alemão. O policial que deu o tiro de fuzil que matou Eduardo ainda apontou a arma para a cabeça da mãe do menino, desesperada e revoltada por ver o filho morto.

Entrevistado pela TV Globo sobre a morte de Kauan, o porta-voz da polícia militar, coronel Mauro Fliess, preferiu lamentar primeiro o assassinato do sargento da PM Carlos José da Silva, morto durante uma tentativa de assalto no dia 17 de março. Atitude que ilustra como são tratadas as vítimas da violência: há sempre algo mais importante a ser dito ou resolvido primeiro, a tentativa de se esquivar da responsabilidade, a negação da culpa. A dor de quem perde seus filhos é tratada como mera fatalidade.

Embora com cada policial morto, mesmo de folga, seja destruída uma parte da autoridade e da ordem do Rio de Janeiro, antes de mais nada cabe ao Estado e aos policiais servir e proteger, conforme seu juramento, principalmente às crianças. O que não cabe é ironia e deboche.

Jenifer e Kauan foram as primeiras crianças mortas em 2019 no Rio. É fácil prever que mais crianças e adolescentes morrerão. Em 2018, o número de vítimas fatais da violência armada, com até 17 anos de idade, chegou a 46 pessoas, segundo o laboratório de dados Fogo Cruzado. O ano atual tem como agravantes um governador que incentiva o confronto armado, um presidente que tem na cabeceira a obra de um torturador e um eleitorado louco por sangue. As crianças do Rio de Janeiro são a razão para lutarmos contra a barbárie.


Mário Lima Jr. é escritor.

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