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O bairro Água Mineral ou as Águas Francesas do Brasil, por Erick Bernardes


Há lugares tão fáceis de relacionar com coisa ou outra que dispensam explicação sobre seus nomes registrados no mapa do município gonçalense. Duvido ao leitor não adivinhar o motivo de batizarem o logradouro Água Mineral com tal referência refrescante. Claro, se é água de beber, decerto houve tempo em que: ou se extraía o nobre líquido com fins de comercialização ou, mais à frente, sepultavam a fonte gonçalense de água mineral por causa do descaso com o nosso município.

Bem, enquanto o ônibus não chega falo do bairro chamado Água Mineral, lugar de confluências e encontros com espaços não menos conhecidos. Rocha, Engenho Pequeno, Colubandê, esses são limites territoriais comuns aos moradores do local. Decerto a extração de água e o seu devido envase na fonte mineral de São Gonçalo ficou para os livros de história. Melancólica constatação. Ainda no século XX, as Águas Francesas, como explica o historiador Jorge Pereira Nunes, no artigo “As águas milagrosas”, cultivadas pela família Malafaia, como eram chamados seus produtos de São Gonçalo, revelavam - lá para os lados do Rocha - boa fonte de renda para Pedro Rodrigues Pinto (1887/1966), que explorou a extração das águas com sagacidade de profissional de marketing. Um belo exemplo da importância desse fluido vital está nos versos poéticos do professor Adalberto Nicoll, de acordo com Nunes, no poema “Água milagrosa da fonte do Rocha”, texto extremamente bucólico, cuja natureza assumiria o seu papel de musa e revelaria a riqueza hídrica que havia em São Gonçalo. Um tipo cândido de linguagem literária.


Se o leitor perguntar como se encontra essa tal fonte natural agora, direi que raríssimos cidadãos mais velhos ainda sabem falar sobre o assunto. Outros adivinharão a origem do nome do bairro por analogia. Assim é mole, né! Liga-se o nome à coisa e pronto! O sabichão tem aí narrativa convincente. A área do bairro atual ostenta matagais, entulhos, roubos de carros aos montes... descaso governamental, e é o que tem pra hoje. De poético me ficaram na lembrança os jogos de várzea praticados no Campo do Repolho, lá mesmo perto do lixão da Água Mineral. Quando, de um lado, via-se o time local aquecendo os músculos e, do outro lado, o time convidado do Engenho Pequeno, que levava a equipe quase bêbada de cachaça amarela comprada no Bar do Peixe Frito. Bem, mas isso de esporte é tema para outro amigo colunista do Daki.

Fiquemos, para terminar, com a nostalgia do Sítio dos Três Coqueiros, onde eu visitava na Água Mineral, espaço de onde a produção de codornas abastecia o comércio local, e cuja saudade chama hoje a lembrança dos banhos de piscina que nós tomávamos antigamente. Uma pena, só o inconformismo nos resta, quando o grito do camelô dá um tiro na gramática anunciando “água mineral é só dois real” e me faz voltar à realidade.


Erick Bernardes é escritor e mestre em Estudos Literários.

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