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De volta ao golpe, por Mário Lima Jr.



O presidente Jair Bolsonaro e as Forças Armadas celebram hoje o golpe civil-militar iniciado há exatos 55 anos. Inspirados por Bolsonaro, adorado como fenômeno incorruptível, parte dos brasileiros se junta às comemorações através do celular e das redes sociais. Com eles, ao invés de avançar na direção da justiça social e do desenvolvimento, o Brasil dá um passo para trás, de volta à estupidez e ao ódio.

O Exército pertencia ao presidente João Goulart nas primeiras horas do dia 31 de março de 1964, como narra o jornalista Elio Gaspari em A Ditadura Envergonhada. Mas, o país inteiro cambaleava. Nas Forças Armadas, o general Olympio Mourão Filho, comandante da 4ª Região Militar e da 4ª Divisão de Infantaria, apresentava maior grau de desequilíbrio. Às cinco horas da manhã, vestindo pijama e roupão de seda vermelho, Mourão desencadeou o golpe, inicialmente usando o telefone como arma, em busca de apoiadores. O domínio dos militares sobre o povo brasileiro teria fim 21 anos depois, após torturar cerca de 20 mil pessoas, destituir do cargo 4841 representantes eleitos e matar pelo menos 434 pessoas, de acordo com números da Comissão Nacional da Verdade.

Bolsonaro repete a tese de que o golpe, que ele chama de “revolução”, livrou o Brasil do comunismo. Na verdade, a ditadura militar chegou ao ponto de torturar e estuprar crianças. Dezenas foram presas, fichadas, exiladas ou entregues para adoção ilegal. Mulheres grávidas estiveram entre as vítimas violentadas. Não parece que o país se livrou de muita coisa.

Tanto que após o início da barbárie e o endurecimento do regime, os civis se arrependeram de tê-lo apoiado. Protestos se tornaram cada vez maiores e mais frequentes. Mas era tarde. O Congresso foi fechado, o habeas corpus, suspenso, e os cidadãos perderam seus direitos mais sagrados. Em um país sem memória, que não se lembra da dor da época, há infelizes que sonham com uma nova intervenção militar e o fim da democracia.

A comemoração do golpe é nojenta e vergonhosa. Por 6 anos servi em diferentes organizações militares da Marinha. Nunca nenhum comando cogitou comemorar o uso indevido das Forças Armadas para derrubar um presidente legítimo. A proposta pareceria ridícula para qualquer militar se não tivesse vindo de Jair Bolsonaro, fã assumido de Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido pela Justiça como torturador na ditadura.

Jamais meus companheiros de trabalho citaram o golpe com alegria ou orgulho. Todos os militares que conheci, milhares de pessoas, sempre viram as Forças Armadas como uma ferramenta para defesa do Brasil e garantia das liberdades individuais. O bom militar sabe que as Forças Armadas não comemoram suas realizações. Elas servem aos interesses do povo brasileiro, sob a força da Constituição. Bem como sabe que o Presidente da República é o seu comandante supremo, em vez de alvo de conspirações entre almirantes e generais.

O dia 31 de março é uma nova oportunidade para o debate sobre o passado – quando torturar e matar se tornaram práticas de Estado – e um estímulo ao fortalecimento da democracia. Celebrando a ditadura, o presidente Bolsonaro despreza os brasileiros que realmente amam e respeitam a liberdade humana.


Mário Lima Jr. é escritor.

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