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Candoza e a memória apagada da Vila, por Erick Bernardes


O velho Antônio e a família chegaram de Portugal tão logo surgiu a oportunidade. Judeu convertido, imigrado para o Brasil, registraram ele e a família com a nomenclatura da província de onde provinha. E assim se fez, chamaram-no de Antônio Candoza, com letra “z,” em vez do “s” original da terra lusitana.

Sabe-se que, na Idade Média, havia uma aconchegante freguesia repleta de pedras e cascalhos polidos ornamentando ruas e vielas de Portugal. Daí batizarem o lugar com o nome medieval lusitano de Candosa, cuja palavra significava espaço pedregoso. Região afastada, ao melhor modo de convivência aldeã, a freguesia de Candosa despejara no mundo dezenas de famílias nascidas por lá. Dizem os documentos que Europa Oriental, Américas do Sul e do Norte, Austrália e Macau, todos esses países receberam os filhos candosenses lusitanos e os abraçaram. Decerto com o Brasil não foi diferente, chegaram de além-mar dezenas desses naturais de Candosa e se distribuíram pelos estados do Sul e Sudeste — e foi numa imigração assim que Antônio Candoza consolidou comércio em São Gonçalo. Primeiro, morou no Rio do Ouro, não vingou, mudara com a família para o Porto Novo. Em seguida foi viver em Neves, devido à proximidade com o comércio onde expunha seus produtos.


Negociante de peixes cresceu economicamente e comprou terreno gigante para os lados da Estrada do Coelho, onde plantou cana, laranja e goiaba. Mudou de ramo, sim, homem visionário e sagaz, impossível não dançar conforme a melodia da agroeconomia. Com o tempo, construiu vila de casas de quarto, sala e cozinha, no intuito de manter confortáveis os funcionários que faziam crescer as suas plantações. “Gente boa”, diriam as famílias que trabalhavam para Antônio Candoza na lavoura. Mas o velho português entristeceu e faleceu um ano após a morte da esposa; um mal súbito levou a amada dos seus braços e logo em seguida Antônio sucumbiu de pneumonia. Um filho faleceu na década seguinte de febre tifoide sem antes batizar a vila dos agricultores com o sobrenome familiar. Quanto ao paradeiro da filha? Bem, indícios de embarque apontam que a filha fora morar na Itália com o marido diplomata e desgostou do Brasil.

E, assim, meio romanceada, triste e de explicação estranha (pois parece a única que convém), estendeu-se o nome da pequena fileira de casinhas. A vila que virou Candoza. Se tenho certeza? Uma rápida pesquisa na internet mostrará ao internauta o caminho das pedras, ou melhor, revelará o destino último da família candosense. E, por fim, de morada dos trabalhadores a título de bairro, o registro no mapa gonçalense caiu como luva na mão do cronista: Vila Candoza, eis aí.


Erick Bernardes é escritor e mestre em Estudos Literários.

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