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Um símbolo magnificente, por Fábio Rodrigo



Numa destas idas ao centro do Rio de janeiro, adentro na mais antiga confeitaria da cidade: a Casa Cavé. Esta sim é parada obrigatória para saborear deliciosas iguarias portuguesas. Pedi um café com uma fatia de bolo rei e sentei à mesa. Observei que há um quadro com os frequentadores da casa. Entre eles, está Carlos Drummond de Andrade, que era frequentador assíduo e tinha inclusive uma mesa reservada para ele. Até hoje esta mesa está com seu nome.

O ar literário tomou conta de mim naquele momento. Não era somente degustar de um café com bolo e sim estar em um dos locais mais badalados por nossos artistas e intelectuais. Sabe-se que, quando Drummond chegava lá e via alguém ocupando a sua mesa, ficava de pé esperando que a pessoa se levantasse e desse lugar a ele. Muitos a ocupavam de propósito com o intuito de poder ter contato com o ilustre poeta.


A Casa Cavé é símbolo magnificente de uma época de renovação da cidade do Rio de janeiro. Sua arquitetura, com lustres e vitrais franceses, nos faz reviver uma época em que a cidade se modernizava e adquiria ares de cidade europeia. Algo difícil de entender hoje já que a cultura estrangeira nunca é uma obsessão nossa. Acho que respirar o ar literário da casa me fez ser um pouco irônico neste momento. Aliás, a ironia é uma figura de linguagem muito usada por Carlos Drummond de Andrade, além de outros escritores que acompanharam as transformações ocorridas no Rio de Janeiro no começo do século XX. Era uma época em que as confeitarias, como a Casa Cavé, eram ponto de encontro de nossos grandes escritores. Nela, se discutiam vários temas do momento. Fico imaginando que ali podem ter surgido inúmeros poemas da nossa literatura.

É motivo de muito orgulho saber que a Casa Cavé resiste mesmo com a concorrência de franquias ou redes de fast-food. Não é qualquer estabelecimento que consegue permanecer muitos anos sem o apelo comercial que outros possuem. Falar da Casa Cavé é falar de resistência sim. Aliás, a resistência é o que nos move contra qualquer força capaz de fazer sucumbir nossos desejos mais nobres. É ela a mola de escape frente aos embates. Este símbolo da elite intelectual e artística resiste ao anti-intelectualismo que reina em nossa sociedade. O tempo atual pede que falemos de resistência. Que falemos da Casa Cavé.


Fábio Rodrigo Gomes da Costa é professor e mestre em Estudos Linguísticos.

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