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O Brasil não dorme tranquilo, por Mário Lima Jr.



Acordei no meio da noite, sonhando com Darcy Ribeiro. No sonho, eu perguntava como despertar no brasileiro o orgulho de carregar sangue indígena nas veias. Para que cada indivíduo, orgulhoso, contribua com a preservação da vida dos primeiros povos e do meio ambiente, fundamental em tempos de aquecimento global. Darcy apenas sorria para mim, quase com deboche, insinuando que adoraria conhecer a resposta para a questão. Depois do sonho, tremi e senti calafrios por duas horas, não consegui mais dormir. Então percebi que não estava acordado sozinho. O Brasil também não dorme direito.

As crianças do Norte do país, de claros traços indígenas na aparência física, são diariamente vendidas como escravas sexuais em troca de um pacote de biscoito, a bordo das embarcações que cortam os rios da região. Nenhum país é capaz de deitar a cabeça sobre o travesseiro e dormir tranquilamente diante desse mal.

Os jovens negros vivem amontoados nas favelas, sem educação de qualidade, sem opções de lazer e cultura, apanhando de bandidos, servindo ao comércio de drogas e morrendo nas mãos de traficantes, milicianos e policiais. O mesmo sangue, indígena e negro, massacrado pela escravidão iniciada há cinco séculos atrás. Para provarmos que não saímos impunes dessa vergonha e ela nos acompanha até a cama, na maior parte do Brasil basta sair de casa e iniciar uma caminhada curta. Entre as consequências dos crimes do passado e da atualidade, indigentes morando nas ruas, moleques vendendo balas nos sinais de trânsito e assassinatos à luz do dia, inclusive cometidos pelas forças de segurança do Estado. O país sente o incômodo, mas viramos o corpo e tentamos dormir do outro lado.

O Brasil não dome tranquilo porque sabe que há um trabalho enorme a ser feito, aguardando nossa coragem. A eleição de Jair Bolsonaro à Presidência da República foi menos uma resposta à corrupção e à insatisfação política do que um ato de covardia. De puro medo. Não de que o Brasil virasse uma Venezuela. Medo do Brasil ser o grande país que o mundo já antecipa e admira, porque esse destino exige sacrifícios.

Se o eleitor tivesse esclarecimento e força, jamais cometeria suicídio nas urnas. Para honrar a combinação especial de sangue europeu, indígena e africano, encontrada em nenhuma outra parte do mundo, o brasileiro só pode exigir a paz. Só ela está à nossa altura. Não estamos destinados a ser um povo que ensina gestos de violência a crianças. Que acha que violência contra violência é o único caminho. É conversa para beneficiar fabricantes de armas, que lucram através do ódio. É papo de terrorista covarde, que passa a noite acordado planejando seu próximo ataque contra inocentes.

Tão audacioso quanto a criatividade brasileira é acabar com a violência através do desenvolvimento social, tirando as armas das mãos dos criminosos antes que cheguem a eles. Mas as ferramentas de promoção da dignidade humana, entre elas as pastas da Educação e dos Direitos Humanos, estão sob o controle de seres bestiais, cada um com a sua cadeira alta nos ministérios, onde discutem se as crianças violentadas sobre os rios e dormindo ao relento na rua devem usar rosa ou azul.


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