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Colubandê: bairro centenário ou história da carochinha, por Erick Bernardes


Deveria ser o terceiro ou quarto quilômetro correndo na pista emborrachada bem atrás da Fazenda Colubandê. Tempo bom aquele, quando pôr o corpo em movimento era só um detalhe frequente de condicionamento juvenil. Pois é, ao tentar queimar gordura, é bom saber que a mente da gente vai criar mecanismos ou explicações só pra nos fazer esquecer as desgraçadas câimbras na panturrilha.


Fotos: Erick Bernardes

Sim, recordo de uma dessas divagações momentâneas resultantes dos exercícios matinais. Enquanto trotava, ficava pensando nas leituras sobre narrativas coloniais e sobre a fundação de São Gonçalo. Tenho pra mim que foi uma tal proprietária do Engenho de Nossa Senhora de Monserrate aquela que primeiro rasgou o solo fértil da fazenda no intuito de extrair o seu quinhão de lucro com a venda de açúcar mascavo. Incrível como os ricos se metem desde cedo na exploração agrária em nosso município e depois deixam pra lá, ao léu e abandonada. Vai ver só o estado em que se encontra o casarão! Dizem até que, em outra fazenda localizada em Santa Isabel, a tal propriedade Santa Edwiges, pertence à família poderosa de políticos tradicionais e “cortezes”, e que, além de repetir registros de santas católicas, esses ricos são pessoas que perpetuam esperanças de latifúndio centenário e exemplar. Bem, mas o tal ioiô da memória quer me falar de outra coisa; o vai e vem do pensamento insiste em afirmar que o registro da Fazenda Colubandê tem mesmo origem judaica. Sei lá, há estudos mais confiáveis sobre isso. Homero Guião, Rui Fernandes, Jorge Nunes, dentre tantos lutadores da memória do município talvez saberão dizer melhor.

Um desses estudos encontrados na internet me ofereceu o nome do cristão novo Duarte Ramires de Leão, outrora o fariseu Benjamin Benveniste, vindo das montanhas de Gólan, na Síria — e que teve de mudar de nome por questões políticas, obviamente. Esse judeu Benjamin, convertido em Duarte de Leão (duvido que converteu mesmo), teria comprado a propriedade da tal senhora de Monserrate e dado nome judaico em homenagem aos seus precursores. O povo Bãdé, conforme eram referidos os antepassados do recente proprietário da fazenda, espalhou seus representantes pelo mundo todo e também vieram parar em São Gonçalo. O leitor tem dúvida? Vai lá na internet conferir, depois me conte.


O povo das montanhas sírias gargalhava da dificuldade dos escravos em pronunciar esse registro de fazenda tão complicado. Falar Golan Bãdé era só complicação. Mas venceu a expressão do povão mesmo, ganhamos nós no falar popular e adaptamos o nome que virou bairro por aqui. Adequação de linguagem, isso sim. Está aí a explicação! Colubandê, mais gostoso no nosso falar popular e muito triste no mirar a imagem de abandono desse patrimônio histórico.


Erick Bernardes é escritor e mestre em Estudos Linguísticos.


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